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Fio de Prumo



Domingo, 12.02.06

Sem ser ao acaso...

Cor. Manuel Duran Clemente.JPG


No dia 15 de Novembro fiz aparecer neste local uma crónica a que dei o título «Um pouco ao acaso...». De três temas, um houve a que dediquei alguma atenção: a pequena (infelizmente) luta que um punhado de bons Portugueses andam a travar para que, no antigo edifício onde funcionou a sede da famigerada PIDE/DGS, não se construa um condomínio de luxo, mas antes um museu que recorde o que foi a ditadura em Portugal. Não é nada de mais!


Em 2001 estive em Paris e, por diversas vezes, desloquei-me a uma ruazita estreita, mas comprida, nas proximidades da grande praça da Étoile. Para encontrar a dita artéria perguntei a quem conhecia bem a cidade como e onde se situava e, quando o fiz, a explicação veio sempre acompanhada do acrescento: — ao fundo dessa rua está o prédio que foi, durante a ocupação nazi, a sede da Gestapo!


Sessenta anos depois, os parisienses ainda sabiam onde tinha estado instalada a famosa polícia política de Hitler e, contudo, a ocupação durou uns escassos cinco anos! É extraordinário que um Povo guarde assim as suas memórias. A memória das suas feridas. É, por certo, um Povo com personalidade.


Nós, os Portugueses, trinta e um anos depois do derrube da longa ditadura de quarenta e oito anos queremos construir na sede da polícia que calou, encarcerou, torturou e matou Portugueses que se rebelavam contra um sistema odioso, queremos construir um condomínio de luxo! Que memória desejamos que tenham de nós os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos? A lembrança de um Povo que se verga a qualquer canga ou que se vende por qualquer saco de dinheiro?


O meu Amigo, capitão de Abril, como gosta de ser tratado, Manuel Duran Clemente, esteve no dia 5 de Outubro — feriado nacional — junto à antiga sede da mal afamada polícia, manifestando-se, exigindo que os poderes públicos intervenham e mandem que ali se faça História, História viva de vidas torturadas e mortas (porque, já depois da vitória democrática de 25 de Abril de 1974, das janelas do edifício, foram disparados tiros sobre a multidão, matando quem se revoltava contra a ignóbil gentalha acoitada por trás daquelas paredes!). Ele, com outros cidadãos, reclamava e exigia que tivéssemos todos, mas todos, vergonha.


Os poderes públicos, em vez de uma resposta imediata, afirmativa e repousante, garantindo que ali se continuaria a recordar que ditaduras nunca mais, mandou a polícia cívica, fardada e à paisana, dispersar a pequena manifestação, porque «estava a interromper a circulação automóvel»!


Meu Deus, que é isto? Que Pátria é esta? Que governantes são os nossos? Que descaramento é preciso? Interromper o trânsito numa rua de Lisboa a horas de pouca ou nenhuma circulação, num dia feriado! Mas que moral é esta? Que cidadãos são estes que comandam ou mandam na polícia cívica? Será possível que se argumente assim, quando, em dias de trabalho, a horas de ponta, são os mesmos agentes quem dificulta o trânsito, porque dois ou três veículos se amolgaram por pequenos acidentes?! São os mesmos agentes incapazes de resolver, por forma expedita, situações que resultam em filas intermináveis de automóveis e atrasos irrecuperáveis!


Que gente somos nós? Que gente nos governa? Que gente assegura a ordem e o regular funcionamento do trânsito?


Estas perguntas têm o seu fundamento, visto há dias, o Duran Clemente ter sido intimado a deslocar-se a uma esquadra de polícia para responder a um processo mandado abrir pela Procuradoria Geral da República (PGR). Motivo: a mini manifestação de 5 de Outubro do ano transacto. A pequena manifestação em que, por momentos, o trânsito foi interrompido na Rua António Maria Cardoso, junto à antiga sede da PIDE/DGS.


É extraordinário!


Assim se gasta o dinheiro, o tempo e a paciência de uma série de pessoas, porque não se quer olhar para uma questão tão simples: o edifício tem de ser um museu destinado a recordar a tortura. Poderá, ao mesmo tempo, dar abrigo a outras funções que recordem o fascismo português. É simples a questão, mas alguém está a fazer contas aos milhões que vale o espaço naquele local.


Seremos sempre miseráveis, porque pomos à frente de valores morais e colectivos os valores materiais e individuais.


Coragem Duran Clemente, não é a última vez que te incomodam por causa da liberdade e democracia que ajudaste a construir, nem vai ser a mais dolorosa. Todos nós, os militares de Abril, estamos contigo!

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por Luís Alves de Fraga às 22:14


7 comentários

De Anónimo a 19.02.2006 às 19:40

Os franceses têm orgulho e não vergonha de ter combatido e derrubado o terror nazi!...

Por isso mantêm vivos os símbolos desses medonhos cinco anos. Desses tempos, em que houve compatriotas que colaboraram com o terror.É curioso
(http://ecurioso.blogs.sapo.pt/)
(mailto:Jocaco@mail.pt)

De Anónimo a 14.02.2006 às 18:42

Caro Fraga. Compreendo a sua indignação. Mas, com a "crueza" que me caracteriza, não posso deixar de lembrar o que se passou em 1975. O PREC e as forças políticas que o apoiavam, mostraram uma dinâmica que, para bem ou para o mal, pareciam imparáveis. Mas, de repente, e coincidindo com a independência de Angola (para o MPLA), a revolução fechou as portas e devolveu, sem m tiro, o poder a quem o tinha do antecedente. Cunhal, que na altura era quem mexia os cordelinhos, acabou por ir para a cova sem dar uma explicação... deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 13.02.2006 às 19:17

Fazem falta estes Homens que lutam por causas que parecem quase perdidas. É pena que esta minoria não seja transformada em maioria...Acho que o medo nunca desapareceu da sociedade Portuguesa.Carlos Serra
</a>
(mailto:cjoaserra@hotmail.com)

De Anónimo a 13.02.2006 às 00:58

Aínda hoje, como quase todos os dias, vi uma casa com anexos. Sei que não parece ter nexo! Mas, os anexos dessa como de tantas casas, são melhores que a minha própria casa, o pouco que deixarei aos meus filhos... Sei que eles valorizarão a "casa" como se uma herança anexa fosse, sabem e a isso os instruo, que os bens materiais que me sucederão, serão apenas isso, ANEXOS ao que sou! O que me dói, é saber que pessoas instruídas, na Instituição Militar, pessoas que foram reensinadas a ter comportamentos sociais exemplares, se tenham corrompido pelo dinheiro e pela "condição Social". Tenho orgulho em receber onde vivo, quem queira "viver" no Mundo onde existo, quem saiba e valorize mais o que se pensa, age e ensina, do que aquilo que se impinge.
Sei e assumo o que digo e escrevo (por isso me identifico e já sofro consequências), como também sei que se este meu "post" fôr inoporturno, será deste local "apagado".
Bem-haja por este "sítio"!C. Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 13.02.2006 às 00:31

Meu amigo... Enquanto os cidadãos forem "intimados" a comparecer em algum lado... Bem pior será quando alguns cidadãos sem direitos de cidadania, desaparecerem (leia-se, sejam transferidos ou deslocados) da companhia e apoio às suas fanmílias. Quando "face a restrições orçamentais" alguns súbditos e subjugados interesseiros e rastejantes seguidores dos interesses partidários e políticos, negarem os aínda poucos direitos da "escumalha militar" classe a que pertencem (ou pertenceram alguma vez)...
Lanço-lhe um desafio, meu amigo; Já ouviu falar do "Instituto de Acção Social das Forças Armadas" ???
É triste, mas, enquanto a "liberdade de expressão" existir (JÁ QUE SE FALA DE DITADURA...), falemos e que se dê a conhecer O QUE nâo existe, falemos das "regalias" negadas por "trinta dinheiros" (na versão actual 1100 €)
Nunca pensei que " a tropa " descesse tanto, ao ponto de negar empréstimos de 1100 € aqueles que para isso descontam (descontam) há dezenas de anos!(quando sabemos que a actividade "bancária" é extremamente lucrativa! "Emprestar" dinheiro de forma legal, cobrando taxas, é lucrativo, não poderá nunca ser considerado como "acção social"!
Peço uma vez mais desculpa, mas, a Ditadura e as intimações, bem como a negação de "REGALIAS" , dá-me nojo!
Quando fôr grande quero ser "contra". Contra alguém ou contra todos os que não se subjuguem, contra os que forem iguais a mim, apenas contra, ou apenas "contra" qualquer posto ou patente subjugada aos Ditadores, que ditam ...
Ordens aos contra!
Espero há algum tempo a intimação, estou pronto! C.Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 13.02.2006 às 00:00

A única explicação válida para tudo o que tem acontecido no nosso país, de forma a que o 25 de Abril seja esquecido rapidamente é a que, mesmo que nunca tivesse existido uma Revolução, em Portugal, em 25 de Abril de 1974, SERIAM AS MESMAS PESSOAS QUE HOJE ESTÃO NO PODER QUE, DE QUALQUER FORMA, LÁ ESTARIAM. Eles podem dizer-se Socialistas, Social-Democratas, o que quiserem. O que mais me "arrepia" é essas pessoas não terem a coragem de se chamarem "pelo nome", em vez de andarem "escondidas" sob designios que eles sabem falsos. São os que o povo chama de "lobos com pele de cordeiro". António Gomes
</a>
(mailto:azul51@aeiou.pt)

De Anónimo a 12.02.2006 às 23:43

Não me admira que este " espectáculo" vá continuando
Hoje o Clemente,há tempos ,na Pj o Mariz Fernandes
e outros que não são tão conhecidos.
Não tenho comentário algum a fazer por que é isto que merecemos.
Estamos totalmente alienados pelo poder politico
e mais ,militares há que fazem parte do elenco
politico ,que é a vergonha nacional.
Amigo Fraga desculpa dizer-te isto.É outra forma
mais radical de ver o problema.
Tenho pena que tivesse acontecido ao Clemente este
episódio vexante.Fui camarada de turma dele...Fonseca dos Santos
</a>
(mailto:joaoernt@netcabo.pt)

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