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Fio de Prumo



Domingo, 25.09.05

A Democracia que nós queríamos...

Não interessa o dia nem o mês do ano de 1974 ou de 1975; importa que nos situemos logo após a Revolução dos Cravos.


Na maioria éramos capitães e outros, poucos, majores; havia uns raros tenentes-coronéis, coronéis brigadeiros e generais. Chamámos-lhe Movimento das Forças Armadas (MFA). Começámos por querer derrubar a ditadura, pôr fim à guerra em África, deixar que em Portugal florisse uma Democracia, dando voz ao Povo. E Povo, para nós, eram os soldados que havíamos comandado em África, as famílias que por eles haviam chorado. Povo era, especialmente, esse todo sem um rosto definido, mas onde se incluía, também, a nossa Família — os Pais, os Irmãos, as Mulheres, os Avós, os Tios e os Primos; os Vizinhos, os Amigos. Na nossa alegria quisemos a alegria dos Povos africanos por onde tínhamos andado. Por isso, achámos que a sua luta havia de ser recompensada com a independência; era um direito que os Portugueses tinham conquistado havia 831 anos. Os Povos querem-se livres... Essa a razão pela qual gostámos dos versos: «Uma gaivota voava, voava/ Asas de vento coração de mar/ Como ela somos livres/ Somos livres de voar»!


Queríamos uma democracia, mas éramos simples militares habituados a obedecer e a mandar. Sabíamos que Democracia só era possível com Liberdade. Mas Liberdade para quem? Naturalmente para todos! Mas no «todos» estavam, também, os que nos haviam tirado a Liberdade ou com eles tinham sido coniventes?


Começámos, nos quartéis, nas bases, nos navios, a ouvir falar de diversas formas de «criar» a Democracia. Dividimo-nos. Uns queriam a democracia popular; outros a democracia «menos popular», mas orientada por aquele grupo que havia sido mais explorado; muitos queriam a democracia capaz de repartir a riqueza por todos, pelos mais necessitados sem, no entanto, deixar ninguém sem o que, de direito, lhe pertencia; alguns achavam que a democracia era viável, sendo os ricos a orientar a política. Todos queríamos a Democracia, mas começámos a deixar que os políticos e os ideólogos nos cativassem, «namorando-nos» com palavras que gostávamos de ouvir. Chamavam-nos Libertadores. Gritavam nas praças e nas avenidas: «O Povo está com o MFA». Para onde quer que nos virássemos tínhamos sempre o Povo a pedir que puséssemos as nossas armas ao seu serviço. E nós fomo-nos dividindo. Afinal, nós estávamos com o Povo e o Povo estava connosco. Por trás do Povo estavam os ideólogos, os políticos e os seus aprendizes que, quais sereias, nos cantavam procurando atrair-nos para os seus braços. E nós fomos... Uns para aqui, outros para ali, alguns para acolá.


Deixámos de ser o MFA para sermos vários MFA’s. Começámos a dizer que os outros eram os maus e nós os bons; mas eles diziam que eram os bons e nós os maus.


Nós, todos nós — os capitães, os majores e alguns outros mais graduados —, que tínhamos estado de acordo na necessidade de dar ao Povo a Democracia, acabámos olhando-nos com desconfiança, com rancor, com maldade. Prendemo-nos em Custóias, em Caxias. Julgámo-nos em Conselhos Superiores de Disciplina, onde os generais nos mandaram para a reforma compulsiva. Acusámo-nos, destruímo-nos.


Ficou um Conselho da Revolução supostamente a tutelar a Democracia, a construção da Democracia. Que tolos que nós fomos! Já não tutelávamos nada, porque já nos haviam tutelado quando nos deixámos dividir, quando perdemos de vista que o Povo era mesmo o Povo, aquele que tinha estado em África connosco, aquele que havia chorado os nossos mortos e a nossa ausência.


O ilusório Conselho da Revolução não revolucionou nada, porque a revolução já tinha sido feita quando paulatinamente, com grande frieza e muitas palavras bonitas, nos tinham dividido. Tínhamos sido uma força antes de nos separarmos... No Conselho da Revolução éramos a amostra de uma força a viver os esgares da própria agonia, a sofrer os estertores de uma morte que tínhamos anunciado para breve. Os ideólogos, os políticos, riam-se nas nossas costas, nas costas da nossa ingenuidade, que nós, quixotescamente, clamávamos aos ventos ser uma couraça de honestidade, de responsabilidade, de patriotismo, de sentido de cidadania.


Voltámos, obedientemente, disciplinadamente, para os quartéis. Aceitámos que pertenciam ao passado o Ministério da Marinha, o Ministério do Exército e a Secretaria de Estado da Aeronáutica. Aceitámos a subordinação a um único Ministério, o da Defesa Nacional. Os militares não queriam ser ministros, que o fossem os civis. A democracia estava «feita»!


Não, não estava feita a Democracia! Estavam lançados os caboucos de um «edifício» que poderia ter sido lindo, perfeito, se não nos tivéssemos deixado dividir, se não nos tivéssemos preso e saneado (depois de 11 de Março, depois de 25 de Novembro de 1975) uns aos outros, se não nos tivéssemos iludido com a força do Conselho da Revolução! E, pior de tudo, fomos, depois de regressar a quartéis, deixando que nos empurrassem para o silêncio de uma disciplina que, sendo indispensável é nosso apanágio, lhe chamavam «militar». Essa «disciplina» passou pelo direito de, entre os generais, ser eleito o Chefe de Estado-Maior, depois, serem propostos três nomes de generais para o Governo seleccionar um; finalmente, o Chefe do Estado-Maior de cada ramo das Forças Armadas é escolhido pelo Governo. Nesta fase só faltava estabelecer o braço de ferro com os Chefes de Estado-Maior, com as associações e com os militares em geral. Tudo isso foi feito, não só porque é preciso poupar dos militares uns dinheiros que algures serão gastos em qualquer departamento governamental, como também e, acima de tudo, provar que estamos verdadeiramente subordinados — como se alguma vez tivéssemos estado insubordinados! Não bastou irem-nos cortando nos orçamentos, irem-nos exigindo redução de efectivos, impondo reorganizações, passagens à reforma, limites de idade; era preciso igualar-nos aos funcionários públicos! A nós que — sem desprimor desses servidores do Estado — não o somos, porque as limitações dos nossos deveres têm como fronteira a dádiva da própria vida! E quantas vidas nós demos para defender a Pátria! E quantos ficaram e estão estropiados por lhe terem dado o seu corpo, pedaços de si!


Todos os que passámos pela Academia Militar temos gravada na memória e no coração a divisa daquele secular estabelecimento: «Dulce et decorum est pro patria mori» — É doce e honroso morrer pela Pátria. Contudo, para se morrer pela Pátria com honra, é preciso que a Pátria nos honre, nos dignifique, não nos exija só o sacrifício, sorrindo-se de nós quando, exaustos, exangues, cansados de sermos espoliados, nos diz: «O vosso dever é obedecer. Calai-vos!».


Não era uma democracia assim que nós queríamos para o Povo. Queríamos uma Democracia de Liberdade, de Justiça, de Fraternidade, de Dignidade para Todos — desde aquele que tem posses financeiras em abundância até àqueles que têm o direito a receber da comunidade, na velhice ou invalidez, a compensação digna e suficiente que a sua contribuição em trabalho, ao longo da vida, justifica! Essa Democracia, os ideólogos, os políticos, não no-la deixaram construir e nós, na ingenuidade de quem mal não usa, não soubemos ser a guarda pretoriana dos nossos próprios ideais.


Hoje, encanecidos os cabelos, falhos de força física, com os organismos debilitados, o Povo — que em trinta e um anos já esqueceu os seus mortos e se deixa embalar pela propaganda que interesses obscuros alimenta — olha-nos como inúteis e desprezíveis criaturas cuja única ambição foi nada fazer e viver de prebendas orçamentais e exagerados benefícios que nunca tivemos. Que tristeza!

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por Luís Alves de Fraga às 01:52


1 comentário

De Anónimo a 27.09.2005 às 23:23

Caro Coronel Fraga,

Agradeço a oportunidade que dá aos militares no activo de, através das suas palavras, expressarem toda a revolta e angústia que nos vai na alma. Não queremos nem mais nem menos que os outros, apenas queremos ser MILITARES!

Obrigado!Militar
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(mailto:algures@quartel.pt)

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