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Fio de Prumo



Terça-feira, 04.10.05

Estultícia minha ou estupidez do Governo?

No ano de 1979 — e nos anteriores — a Base Aérea n.º 11, situada a poucos quilómetros da cidade de Beja, tinha uma exígua guarnição da Força Aérea Portuguesa, mas, em contrapartida, era numerosa a de militares da Força Aérea Alemã. Aquela unidade servia, essencialmente, para treino das tripulações de aeronaves germânicas, todavia, por força dos acordos existentes, a Base era portuguesa, comandada por um oficial português de graduação superior ou igual à do comandante do contingente alemão. No caso de igualdade, o português teria de ser mais antigo no posto.


A guarnição nacional pouco mais além ia do que a necessária para manter a defesa e segurança próximas das instalações e correspondentes serviços de apoio a essa missão. Por volta de Fevereiro, comandava a Base um tenente-coronel piloto-aviador e, em consequência das circunstâncias atrás descritas, o oficial mais antigo na hierarquia portuguesa era eu, na altura capitão com nove anos de permanência no posto. Nas justificadas ausências do comandante competia-me, entre outras atribuições, estabelecer os contactos com o tenente-coronel alemão comandante do contingente ali sediado.


Algumas vezes, próximo das 16 horas, chegava ao Comando a indicação de que uma aeronave portuguesa ia aterrar na pista por volta das 17 horas ou, às vezes, mais tarde até. Como os controladores de voo eram alemães e o serviço para eles encerrava rigorosamente às 16 horas lá me cabia, na ausência do tenente-coronel português, telefonar para o comandante germânico, pedindo-lhe para manter a torre de controle aberta até a aeronave nacional descolar novamente de regresso à sua base de origem. Nestas alturas, as excelentes relações que entre nós existiam, toldavam-se com uma evidente má vontade do oficial alemão.


Um dia, já cansado de ouvir referências pouco elogiosas à falta de planeamento do Estado-Maior da nossa Força Aérea, desloquei-me ao gabinete do comandante do destacamento germânico e inquiri dos motivos justificativos de tanto desagrado. Com a exactidão geométrica que caracteriza o raciocínio daquele povo, o tenente-coronel explicou-me o seguinte: todos os militares alemães tinham direito a um mês de férias por ano, mas por cada hora a mais de serviço, para além do horário normal, ganhavam o direito a duas horas de licença. Ora, se os controladores aéreos, ao cabo de 11 meses, tivessem direito a um mês de licença e mais oito dias por via das horas extraordinárias, ele poder-se-ia ver confrontado com a situação de, durante algum tempo, não ter controladores suficientes para manter, dentro do horário normal, o serviço em pleno funcionamento e não podia pedir para a Alemanha nenhum tipo de reforço nem impedir os militares de gozarem as suas licenças extraordinárias quando eles o exigissem.


Compreendi e expliquei que em Portugal os militares tinham por obrigação estarem disponíveis para o serviço 24 horas em cada dia do ano, sendo que a licença só poderia ser gozada se não houvesse prejuízo para o regular funcionamento da unidade. Retorquiu-me, fazendo o seu melhor sorriso: — Quem me dera ter nascido português e servir na vossa Força Aérea... Nunca tinha dores de cabeça!


Isto passou-se há 26 anos!


Quer dizer, pelo menos, a Força Aérea Alemã já gozava de regalias sindicais quando em Portugal se davam os primeiros passos na Democracia. O «imperialismo militar» prussiano havia desaparecido por completo das fileiras e, de certeza, não tinham sido oferecidos, pelo Governo, «de bandeja», estes verdadeiros privilégios aos militares germânicos. Era, pela certa, o resultado de uma forte reivindicação!


Foi só quando pensava no texto deste comentário que percebi o meu elevado grau de estultícia e de pouca perspicácia! Não tenham dúvidas da afirmação, porque vou explicar.


Não percebi a subtileza dos cortes dos escassos privilégios que os militares portugueses tinham até há poucos dias atrás. É que o Governo socialista da chefia do Eng.º Sócrates, está, à revelia dos Portugueses e do Povo em geral, a querer conceder aos militares o que lhes cabe, efectivamente, como cidadãos de pleno direito. Quer acabar com a condição militar — que é uma servidão do passado, inconcebível no século xxi — dando-nos direitos iguais aos de todos os servidores do Estado. Em primeiro lugar, um verdadeiro sindicato e não umas associações profissionais «de trazer por casa»; depois, o estabelecimento de um horário rigoroso de trabalho; em seguida, direito ao recebimento de horas extraordinárias ou, em alternativa, dias de licença para além daqueles que, como qualquer trabalhador, podemos gozar em cada ano; acrescente-se o direito de manifestação pública; e,  por fim, outras vantagens que a minha falta de perspicácia não me ajuda a vislumbrar para além do subtil segredo tão bem guardado por Luís Amado e José Sócrates.


Admito a minha estultícia e falta de argúcia na presunção de que o ministro da Defesa Nacional e o Primeiro Ministro deste país não sejam eles tão estúpidos e ingénuos que tenham acreditado que cortavam pequenos privilégios e a condição militar, aceite e imposta aos profissionais castrenses, e tudo o mais ia ficar exactamente como até aqui! Ou bem que estamos na Europa e nos regulamos pelos princípios europeus, seguidos por outras Forças Armadas, ou bem que estamos numa República das Bananas e, neste caso, algo terá de ser diferente! Não acha, Senhor Engenheiro José Sócrates?

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por Luís Alves de Fraga às 08:15


2 comentários

De Anónimo a 05.10.2005 às 17:19

Sr.Coronel,obrigado por ser com este seu blog a voz e o pensamento de muitos que como eu ainda estão(e vão contiunuar a estar)no activo.Eu pela minha parte agradeço-lhe e o máximo que posso fazer é ir publicitando este seu (nosso) espaço por este mundo que é a internet para muitos mais conhecerem a verdadeira realidade.
f16
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(mailto:)

De Anónimo a 04.10.2005 às 09:46

Sr. Coronel, apetecia-me dizer qualquer coisa mas não posso, ainda estou no activo.
Só o que poderei dizer, é uma verdade incontestável, é que sou 1º Sar hà 13 anos, que na minha especialidade tenho cerca de 50 individuos mais antigos e que são promovidos cerca de 2 por ano. Daqui a 25 anos serei promovido, se não for, posso ser enterrado que é quase a mesma coisa.
Quando, na inconsciência dos meus 18 anos, decidi enveredar por esta vocação nem tal coisa me passava pela cabeça. Quanto ao resto não posso falar...Amassado
(http://UTF-8)
(mailto:cjoaserra@netvisao.pt)

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