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Fio de Prumo



Sábado, 08.10.05

A «revolução» do Estado português

Há algumas semanas atrás, o Senhor General Loureiro dos Santos, num programa televisivo, referiu que, na sua perspectiva, os acontecimentos actuais em Portugal, independentemente da problemática militar então vivida no seu auge, faziam parte de uma «revolução» dentro do Estado, no sentido em que tudo está em mudança, na conjuntura presente.


Não duvido da certeza da afirmação de tão brilhante quanto corajoso oficial general. Contudo, como ele se deve lembrar, também há 30 anos havia armas «em boas mãos» e «armas em más mãos», para usar uma terminologia da época e de que ambos nos lembramos. No fundo, também há 30 anos, havia uma revolução «boa» e uma revolução «má». Deste modo, resta qualificar a «revolução» actual, coisa que o Senhor General não fez.


A «revolução» que acontece em Portugal neste momento é fruto de um acumular de circunstâncias em nada excepcionais, porque sempre foi assim ao longo da nossa História. Excepcional é que, conhecendo-se o mal, não se lhe tenha sabido dar cura em mais de quinhentos anos.


Comecemos pelo princípio.


Olhemo-nos, como soe dizer-se, com olhos de ver. Dizemo-nos Latinos, europeus, descendentes dos celtiberos. Tudo é verdade, mas tudo é falso. Falso, porque de europeus só temos o «acidente» geográfico da Península estar ligada à França pelos Pirenéus; Latinos, porque falamos um idioma cuja gramática deriva em linha recta da dos habitantes do Lácio; e celtiberos, porque acreditamos subsistirem nos nossos cromossomas elementos genéticos daquele ancestral grupo étnico habitante da Ibéria. A verdade é bem diferente. Somos cultural e geneticamente berberes, cristianizados e latinizados.


Em nós subsistem traços culturais comuns aos dos mais antigos habitantes do Norte de África: em certo sentido, o sedentarismo agrícola baseado na exploração frutícola e o nomadismo da irrequietude das tribos comerciantes que navegam o deserto; noutro, um individualismo quase grotesco que só se alarga ao clã (seja ele definido pela família, pela vizinhança ou pela miséria). Como resultado, todo o Português sonha com o seu pequeno negócio — se possível capaz de arruinar o do vizinho das portas mais próximas. Para isso, atravessa (tal como atravessou nos séculos xv e xvi) os desérticos oceanos montado num «camelo de pau ou de ferro e movido a vento ou a nafta», à semelhança dos seus ascendentes que, em camelos de carne e osso, «navegam» os «oceanos» de areia desejosos de ganharem o necessário pecúlio para, sedentarizando-se, comprar terra ou o estabelecimento de pequena venda. Foi esta exiguidade de vistas, coberta por um manto espesso de mesquinhas ambições, que nos levou à Índia, ao Oriente, à desconhecida África sub-sariana , aos Brasis, e a recônditos lugares onde poderíamos matar a constante sede de comércio, de riqueza, de ganho de estatuto social, de seja o que for de diferente, para fazer inveja aos menos aventureiros que ficaram amarrados à miséria de uma terra pobre e sedenta de suor para dela arrancarem o magro e escuro pão de cada dia.


Foi neste conjunto de defeitos estruturais, organicamente estruturais, que se fundamentou a nossa inédita epopeia de «dar mundos ao mundo». Tudo para impressionar o vizinho, o familiar, a mulher amada ou desejada, mas nunca na convicção profunda de fazer seja o que for pelo desejo de grandeza do Povo como um todo. Não, isso veio depois pela voz dos poetas, dos líderes políticos e dos historiadores; isso é o mito grandioso que envolveu a pequenez de sentimentos mesquinhos que se satisfazem na compra de um meio de transporte mais impressionante do que o do «senhor» da aldeia ou da rua do burgo donde partiu miserável, mas obcecado por uma «vingança» ditada pela fome de grandeza pessoal, jamais alcançável. Há-de voltar para se exibir, mas nunca para empenhar o seu dinheiro em obra de rendimento garante de um futuro grande para a família, a aldeia, a cidade, o país! Não. Vem para se mostrar, esgotando as largas bagas de suor deixadas em terras alheias, em aparato pouco produtivo, tal como o fez o seu avô e o avô do seu avô.


Maldita inveja, que nos está agarrada às paredes da rede sanguínea qual colesterol hereditário, fazendo-nos mesquinhos, capazes de desejar a pobreza alheia se não alcançarmos o seu nível de riqueza. É pouco importante que chafurdemos na miséria desde que o vizinho dela não saia ou possa dar sinais de abastança.


Não está na nossa índole procurar fazer como quem enriqueceu para construir impérios financeiros sólidos e resistentes ao rodar dos tempos. Não. Está-nos na alma o parecer e nunca o ser verdadeiramente; está-nos nos bofes a pequena inveja traiçoeira ditadora de uma pseudo-independência construída sobre o receio de não sermos tomados como gente importante.


Destes males, que nos vieram geneticamente dos Algarves d’além, padecem os emigrantes que partem para a França, o Luxemburgo, a Alemanha, tal como os que aqui ficam especados, presos na leira de terra, no salário da fábrica, no magro pedaço de orçamento do Estado que lhes escorre para as mãos, nas prebendas resultantes de um canudo conseguido na Universidade sabe Deus a custo de quanto dinheiro e pedidos aos mestres, nas caixas das esmolas dos templos dos que professam e entregam a sua vida a apascentar o rebanho de Deus, nas contas bancárias dos que juram servir como políticos a comunidade de invejosas e mesquinhas gentes que nós somos.


Foram estes males que nos trouxeram a riqueza da pimenta, do cravo, da canela, das pérolas, da seda do Oriente, do açúcar, do ouro e das pedras preciosas de África e do Brasil e, bem mais recente, dos milhões despejados sobre nós como chuva tropical pela Comunidade e que encheu os bolsos dos mais avaros, mais espertos, mais corruptos, mais invejosos, mais espaventosos, sem que nada, ou quase nada, passasse para obras efectivas de progresso da comunidade.


Senhor General Loureiro dos Santos, com todo o respeito que o seu valor como homem de impoluta dignidade, como militar exemplar, como estrategista de renome, como pensador, como laureado estudante, deixe que, concordando com a sua opinião, discorde dela num jogo aparentemente paradoxal. Deixe, porque doenças hereditárias não se curam com estas «revoluções» porque os «revolucionários» estão inquinados pelo mal que prevalece. Na História e da História ficou-nos a vaga ilusão de sermos pacíficos sob o peso da canga obscurantista e mansos quando limitados pelos varais da carroça ditatorial. Não quero ser catastrofista na análise nem na conclusão. Não quero, porque racionalmente me repugnam o obscurantismo e as ditaduras, por isso pergunto-me: — Estaremos, neste momento, realmente, a viver uma «revolução» despojada da carga hereditária que deixei esboçada ou estaremos a ser as vítimas mais sofridas da endemia nacional? Volto, assim, ao ponto de partida, quase convicto de ser esta, pelas razões expostas, a «má» revolução. Mas será, efectivamente?


Cabe-nos, a nós soldados, saber a resposta, por, supostamente, representarmos não só o último pilar onde se sustenta o Estado e a Nação, mas, também, o lado mais saudável, mais puro, mais genuíno, porque realmente abnegado, deste corpo há muitas centenas de anos auto-deformado.

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por Luís Alves de Fraga às 11:06


1 comentário

De Anónimo a 10.10.2005 às 12:08

Sr. Coronel
Esta sua página, à qual endereço desde já os meus parabéns, chegou-me ao conhecimento através de uma pessoa do seu ramo que me é muito querida e que conhece a minha forma de estar na vida. Permita-me, no entanto, e em abono da verdade histórica, uma achega aos seus artigos que li com a maior das atenções e aos quais me permito responder neste de data mais recente.
Recordo-lhe que alguns edis eleitos por diversos partidos a câmaras municipais do solo luso foram incansáveis perseguidores dos iniciados associativistas que nos finais da década de 80 fundaram a ANS. O signatário incluído.
Recordo-lhe que foram a grande maioria dos oficiais que agora se “escaldam”, os grandes perseguidores dos sargentos na mesma altura. Recordo-lhe ainda que alguns dos actuais presentes nas reuniões da AOFA (vejo-os na televisão), eram os perseguidores do passado. Acaso julgavam que o fogo nunca chegaria aos clubes de oficiais?
Um dos ex-secretários da Defesa Nacional foi meu instruendo na EPC em Santarém, foi furriel e não aspirante, como aliás pretendia e MERECIA, porque o sobrinho dum oficial general de nome Azeredo lhe tirou o lugar. Esse senhor, que foi SE do Dr. Paulo Portas, o Dr. Freitas, disse-me um dia (as palavras poderão não ser estas), depois de saber que ia para furriel e não para aspirante:"Meu sargento e pensava eu ser esta a instituição mais transparente, o ultimo resguardo da moral e da ética!".
Senhor Coronel, com o respeito que todos os militares me merecem, de espectro mais largo ou menor, temos o que merecemos, permitimos que o poder político se intrometesse entre os valores que regiam a instituição militar, quando esta ainda era instituição, isto é, enformava de valores e princípios. As chefias fizeram letra morta do sentido da palavra camaradagem, a pala do seu boné deslocou-se da arcada supraciliar para cima do septo nasal, deixaram de olhar para baixo e começaram a mirar ao alto. Em muitos lugares a continência passou a ter três tempos, sendo o terceiro a vénia. Eu vi isso suceder, não me contaram.
Mencionou o exemplo alemão e bem. Sabe, é que apesar dos resultados de duas Guerras mundiais, os alemães jamais esqueceram, para o bem e para o mal, as palavras sábias de Von Clausewitz: Os sargentos são a coluna vertebral dos exércitos. Em contraposição por cá ainda prolifera em muita oficialidade a fórmula apologética de “Os sargentos não pensam”. Tentamos remendar, almejo que ainda em tempo útil, aquilo que as nossas chefias destruíram em duas décadas, o verdadeiro sentido de respeito e camaradagem. O político, manhoso e hábil, soube compra-las e por estranho que pareça, a violação clara do artº 2º do RDM nunca conduziu a nenhuma punição, mesmo quando oficiais generais na televisão (Prós e Contras), afirmaram que não souberam fazer valer junto ao poder político as aspirações dos seus subordinados, violando expressa e claramente aquela norma, para além de alguns deveres do artº 4º do mesmo Código.
É que a classe politica lê um livro que deveria ser leitura obrigatória de todos os militares. Refiro-me ao Príncipe e a Arte da Guerra de Nicolau Maquiavel, e não me sai do pensamento uma das suas passagens: “O inimigo aprecia a traição, mas despreza profundamente o traidor”.
Com o maior respeito e consideração.
Decurium
Fernando Ramos
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(mailto:drframos@netcabo.pt)

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