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Fio de Prumo



Quarta-feira, 26.10.05

De Soldado à Condição Militar

 

Todo o Homem recebe da família e da sociedade um amplo conjunto de regras de conduta que lhe ditam o comportamento em individual e em grupo. Chamamos-lhes, vulgarmente, educação.


Começamos a ser educados logo ao acabar de nascer: dão-nos mais ou menos banhos, trocam-nos as fraldas, limitam-nos o choro, exigem que façamos gracinhas, que aprendamos a falar, a comer, a estar calados, a escrever, a ler, a comportarmo-nos, a não dizer palavras impróprias da nossa idade, a tratar as pessoas mais velhas, mais ricas, mais fortes, mais poderosas, de certa maneira deferente, a brincarmos com os objectos supostamente adequados ao nosso sexo, a conviver cordialmente com os outros, a estudar, a trabalhar, a não dizer mentiras, a não roubar, enfim, numa palavra, a sermos cidadãos decentes e responsáveis. Tudo isto nos ensinam, embora muitos de nós fujamos às regras e, por isso, caiamos sob a alçada da punição paterna, escolar, policial, judicial. Nos diferentes estádios punitivos o que se procura fazer é castigar e reinserir os prevaricadores de forma a aceitarem pacificamente as regras de vivência em sociedade.


A todo o processo vulgarmente designado por educação, dão os sociólogos o nome de socialização e os antropólogos o de enculturação. Para uns, trata-se de socializar o indivíduo, para outros, de lhe transmitir a cultura do grupo onde estão a crescer. A socialização ou enculturação são processos que duram toda a vida — até se «ensina» a morrer, procurando não incomodar os outros com a exposição dos nossos aleijões, das nossas dores, dos nossos sofrimentos, aceitando pacificamente ser levado para lares de terceira idade cujo funcionamento se assemelha a antecâmaras da morte!


O Homem vive o seu processo de socialização, em geral, diferente conforme variantes mais ou menos previsíveis, tais como: país, grupo étnico, meios de fortuna, ascendência, tipo de escolaridade, região geográfica de habitação, empenhamento/disponibilidade dos familiares para o processo educativo, idade e género dos educadores e tantos mais que enumerar seria quase fastidioso.


Na chamada cultura ocidental há duas instituições — a igreja e a militar — que, para profissionalizar o candidato ao trabalho, têm como função reformular, reestruturar e, principalmente, modificar, o processo de socialização «geral» recebido no seio da comunidade de pertença ou familiar. Deixo de lado a primeira, por não ser relevante no contexto desta deambulação intelectual e vou fixar-me na segunda.


Antes de vermos a razão de uma reformulação do processo de socialização dos militares, convirá perceber que este está, efectivamente, na origem de tanta revolta contra as Forças Armadas por muitos daqueles que por elas passaram, em especial quando era obrigatório o serviço nas fileiras. Essa revolta, esse desconforto, esse traumatismo mais não é do que a resposta negativa ao processo de socialização militar. Um processo que trunca um outro que estava em fase de sedimentação inicial, que interfere com a forma de estar e de sentir e, mais do que tudo, de viver que foi apreendida desde a nascença até à idade de ser integrado nos quartéis e passar a receber instrução castrense.


Porque tem de haver um processo de socialização militar para cumprir obrigações de cidadania, por maioria de razão, por ele têm de passar todos quantos pretendem profissionalizar-se como elementos da instituição militar. Daí os cursos de formação de graduados e daí, também, o facto de o mais longo ser o de oficial, chamado, de carreira.


Em que consiste o processo de socialização militar?


Poderia responder da forma simples, dizendo: — Gerar os princípios de aceitação da tão badalada condição militar! Mas opto por tentar uma explicação mais completa.


As Forças Armadas de qualquer nacionalidade não são um bando de homens e mulheres possuidores de armas que obedecem a um chefe. São uma organização altamente hierarquizada de homens e mulheres que, aceitando padrões de disciplina e de ética previamente definidos, desenvolvem entre si um elevado sentido de corpo, materializado na profunda confiança que depositam nos seus companheiros, no sentido de responsabilidade perante o grupo, no dever de entreajuda, na disponibilidade para a emulação face a valores colectivos que lhes são superiores, no constante treino para o exercício das suas funções em ambiente real, na abnegação e desinteresse de condições individuais em nome do colectivo, na coragem perante todas as situações de perigo e risco de vida ou iminência de desastre, na capacidade de auto-controle e de gestão de esforços em momentos catastróficos, enfim, na obtenção e manutenção de qualidades, no seu conjunto, pouco comuns aos cidadãos em geral.


Para se conseguir este amplo leque de condições — e outros menores e menos gerais, que não referi — tem de haver lugar à chamada instrução militar a qual mais não visa que a alteração de comportamentos dos candidatos a militares. Isso corresponde a uma ressocialização do indivíduo, nem sempre pacífica e, quase sempre, dolorosa. Há parcelas do comportamento do recruta que têm de ser anuladas ou reformuladas, mas sempre alteradas. Há como que uma desarrumação de comportamentos sociais e psicológicos para se obter uma nova arrumação sem, contudo, perder de vista os valores e comportamentos anteriores, visto que, mesmo militar, o indivíduo continua a estar inserido e a ter de viver na comunidade civil sem desvios ao padrão comportamental de referência.


Um exemplo simples. Na generalidade todas as crianças aprendem a dominar e não usar a agressividade na relação com os outros. Esta chega mesmo a ser considerada indesejável no âmbito social civil. Ora, uma das mais importantes características do militar é o uso controlado da agressividade, porque constituirá um importante factor de sobrevivência no campo de batalha — sem agressividade é-se um homem, ou morto ou vencido, incapaz de combater. Há uma contradição, que tem de ser superada e compatibilizada pelo militar, traduzível no facto de saber ser agressivo quando e onde necessário e não o ser quando e onde não for preciso. Poderia dar mais exemplos bem esclarecedores. Basta referir um só. O gosto pelo risco.


Na sociedade civil espera-se de cada cidadão um comportamento que não ponha em perigo a integridade física própria e alheia; na militar incentiva-se a treinar o risco para saber vencer e/ou controlar o medo próprio em tais situações.


Todo este emaranhado de exercícios conduz a um fim último: disciplinadamente aceitar as imposições da hierarquia até ao limite de, conscientemente, avançar para situações de possível perda da vida.


É, em última análise, a esta disposição — em nada comum a outras profissões — que, entre nós, se dá o nome de condição militar.


Terei sido capaz de explicar os motivos da especificidade e da diferença entre ser-se funcionário público e militar?

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por Luís Alves de Fraga às 14:00


2 comentários

De Anónimo a 26.10.2005 às 19:21

Artigo muito oportuno, bem escrito e estruturado. E, acima de tudo, muito bem escrito. Concordo plenamente. De qualquer forma, parece-me oportuno referir que nesse trabalho de "acesso" à condição militar não estão incluídas as famigeradas praxes do tipo académico que, infelizmente, são inflingidas aos recrutas (com demasiada frequência e à revelia da hierarquia militar). É urgente banir esses procedimentos tristes e lamentáveis. Porque, para além da indisciplina que revelam, demasiada gente que "fez a tropa" sai das fileiras enojado com o que lhes fizeram neste capítulo. Daí muito do "asco" que uma grande parcela da sociedade civil tem à tropa.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.ptggg)

De Anónimo a 26.10.2005 às 15:13

só gaostava de perceber de que forma pode a igreja e a isnituição militar modificar processos de socialização geral de forma a profissionalizar o indíviduo!!!!!
é que em primeiro não sei em que consiste um processo de socialização geral, em segundo não percebo de que forma podem estas duas insitiuições, enquanto pilares de uma sociedade a par de outras instituições, agir contra tais processos de socialização geral preparando profissionais.....
olhe que, com o devido respeito, deixou-e confuso!
</a>
(mailto:ideiascardoso@gmail.com)

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