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Fio de Prumo



Sábado, 05.11.05

A reorganização da implantação territorial das Forças Armadas

Anteontem decorreu a reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que aprovou a reorganização da implantação territorial das Forças Armadas. Não foram dadas muitas explicações sobre o assunto.


A lógica a que ainda obedecia a implantação do dispositivo militar no país resultava de uma concepção clássica de ameaça a qual se pode sintetizar em duas ou três linhas: as Forças Armadas nacionais, não tendo capacidade para, autonomamente, suster o avanço de hipotético adversário vindo da fronteira terrestre ou da marítima constituíam o elemento retardador para permitir à diplomacia o tempo necessário para negociar a cessação das hostilidades ou garantir a chegada dos auxílios de forças aliadas.


A mudança das conjunturas, a evolução dos armamentos e dos novos tipos de ameaça tornaram obsoleta a disposição no terreno das unidades militares, em especial do Exército, seguindo uma «lógica» de rede ou quadrícula. Nessa «lógica» ainda existem algumas bases da Força Aérea e unidades terrestres da Armada. São concepções a merecer uma revisão feita por especialistas militares e não por políticos!</span>


Hoje, face ao quadro de alianças existentes, ao tipo de ameaças imagináveis e aos armamentos usados, podemos dizer que o rectângulo territorial do nosso país não tem profundidade — na direcção Leste-Oeste — para se desenvolverem acções terrestres de retardamento do avanço de forças que se apresentem por qualquer das fronteiras. Quer dizer, a defesa do solo português, no sentido de uma progressão de Ocidente para Oriente terá de contar com o espaço espanhol; se o avanço se fizesse no sentido oposto — de Oriente para Ocidente — faltaria sempre rectaguarda terrestre para a execução da manobra. Em linhas bem gerais, pode, então, afirmar-se que o sistema defensivo, na perspectiva terrestre, teria de evoluir sempre para uma rotação Norte-Sul de modo a criar algumas hipóteses de manobra às forças no solo.


Do quadro sinteticamente descrito sobressai, de imediato, que a defesa do território nacional não se fará, de acordo com as evoluções técnicas, em terra, mas sim a partir do ar e do mar, numa articulação conjunta, para afastar as forças terrestres adversárias de qualquer das fronteiras do país. Ao Exército caberá uma acção de oposição pontual e, se possível, de desgaste das linhas de abastecimento — no caso de um ataque pela fronteira terrestre. Será um papel muito mais dinâmico, apoiado em meios mecanizados e aéreos, usando o poder de fogo conveniente e disponível.


Depois desta explicação percebe-se que os efectivos da componente de defesa terrestre não carecem de ser muito elevados nem de estar muito dispersos geograficamente; do que precisam é de um significativo aumento do poder de fogo e de grande mobilidade. Estas duas necessidades satisfazem plenamente a uma outra possibilidade de utilização do Exército: a de ser projectado para fora do território nacional integrado em formações de forças combinadas, de outros Estados, ou isoladamente, em casos muito especiais de intervenção rápida e momentânea.


Percebe-se que a implantação territorial do Exército se faça em três ou quatro pontos que reúnam condições para receberem quantitativos em homens e material, em número suficiente para recompletamentos de efectivos já mobilizados e empenhados.


No plano naval a implantação territorial será, como é lógico, pequena. Contudo, na minha opinião, deverá ser reequacionada, porque a única base existente, tal como os únicos estaleiros militares, se situam em áreas nevrálgicas e apetecíveis como alvo diverso — em frente à capital, na zona do Alfeite, demasiado recuadas da foz do Tejo. A sua abertura deveria ser oceânica e não fluvial subordinada à contingência de cortes de navegação por afundamento de navios nos canais de entrada e saída ou queda de infra-estruturas (ponte 25 de Abril, por enquanto).


Por idêntica razão a Base Aérea do Montijo, tal como a Base Aérea de Sintra, há muito deveria estar desactivada, pelo menos enquanto unidade de concentração de meios de intervenção operacional (a proximidade a alvos compensadores para desarticular a vida na capital: aeroporto, porto de Lisboa, estações de caminhos-de-ferro, indústrias fundamentais), conferem-lhes uma vulnerabilidade acrescida. Em contra-partida deveria ser activada, em pleno, a excelente Base de Cortegaça, criando-se, eventualmente, outra no planalto de Trás-os-Montes.


Convirá deixar bem frisada esta ideia: mais importante do que a simples reimplantação do dispositivo territorial das forças de defesa militar, é dotar as Forças Armadas de material moderno e eficiente para o eficaz desempenho das missões que lhes estão atribuídas acrescidas de todas as outras nas quais poderão vir a estar empenhadas. Poucos efectivos altamente especializados e possuidores dos meios apropriados terá de ser o objectivo a cumprir nos próximos dez anos; forças terrestres em elevado número na situação de activo, constitui um erro — há que ter reservas aptas e prontas para uma mobilização imediata — o grande esforço operacional tem de ser transferido para a Armada e para a Força Aérea onde deve prevalecer o tipo e qualidade dos meios operacionais sobre a quantidade de meios humanos. Numa frase: pouco, mas bom.


Tudo isto custa muito dinheiro. Tudo o mais são fantasias!

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por Luís Alves de Fraga às 09:14


1 comentário

De Anónimo a 05.11.2005 às 19:49

Fiz um comentário a este artigo. Como ficou demasiado extenso, resolvi publicá-lo no "deprofundis"deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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