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Fio de Prumo



Segunda-feira, 07.11.05

O dilema dos Chefes

Há tempos, vi noticiado nos jornais o desejo de um significativo número de militares da Armada pretender passar à situação de reserva, até de 31 de Dezembro, antes de atingirem os 36 anos de serviço. Antes, por conseguinte, de entrar em vigor a nova legislação.


Para já, do ponto de vista dos militares, de todos os militares, que o possam fazer e queiram, a adopção de uma tal medida é legítima, porque se é para os antigos e alguns actuais presidentes de câmaras municipais e outros políticos, também tem de ser para os militares! Por enquanto, em Portugal, parece, o sol quando nasce ainda é para todos!


Visto a partir de uma perspectiva individual — a dos militares — a questão é de uma simplicidade absoluta. Metem o requerimento e o Chefe do Estado-Maior respectivo deve deferi-lo Mas todos sabemos a complexidade de uma debandada em massa dos chamados quadros intermédios! Há serviços que, sem apelo nem agravo, paralizam. Ora, compete aos Chefes garantirem a prontidão dos homens e dos meios que comandam, embora lhes compita, em simultâneo, zelar pelo bem-estar dos seus subordinados. É aqui que se gera o dilema. Se os Chefes privilegiam o bem-estar dos seus homens e defendem os seus interesses pessoais estão a contribuir para a inoperância do Ramo das Forças Armadas que comandam; se dão prioridade à prontidão, contribuem para o mal-estar, a infelicidade, o desalento, o desânimo e a quebra do moral dos homens que comandam. E os Chefes sabem que «uma “maç㔠podre no cesto pode ser responsável pelo apodrecimento de todas a restantes»!


O que fazer?


Dada a situação dilemática, militarmente — e sempre foi assim com militares corajosos e comandantes inolvidáveis — só há uma postura a adoptar. Alijar a responsabilidade para cima de quem a deve ter e, depois de ponderados os prós e os contras, tomar a opção que a sua consciência lhe ditar. Por outras palavras, quem gerou a situação que se vive? O Senhor ministro da Defesa Nacional e o Senhor Primeiro Ministro. A responsabilidade cabe-lhes totalmente. Que fiquem com ela! Mas isto não invalida que cada Chefe tenha de assumir uma posição optativa: ou indefere os requerimentos ou, pelo contrário, defere-os, deixando os seus subordinados passarem à situação de reserva enquanto podem usufruir de todas as vantagens e regalias a que tinham direito. É um acto que exige coragem e, se calhar, uma pitada de «loucura». Pessoalmente, se estivesse no lugar de qualquer dos Chefes, deferia todos os requerimentos de passagem à reserva depois de ter avisado o ministro Luís Amado da atitude que ia tomar e responsabilizando-o por todas as consequências que do meu acto pudessem resultar. Ao fazer isto passava-lhe, também, para as mãos o ónus da culpa da minha futura demissão, se ele entendesse mandar substituir-me. Neste último caso, contaria com a solidariedade (nunca existente) dos outros generais para não aceitarem assumir a Chefia respectiva. Se todos tivessem essa coragem, não recebendo as quatro estrelas «envenenadas» que lhes ficara da minha passagem pelo cargo, teríamos uma Forças Armadas exemplares e oficiais generais de grande valor. Teríamos, também, uma crise governamental... Mas isso é um problema dos políticos, porque devem saber avaliar as consequências das suas decisões!


Isto era «se»... E, como diz um meu familiar, com «ses» mete-se Lisboa numa garrafa!


Os Chefes têm um dilema. Estejam à altura do cargo, sabendo-o resolver. Chefiar e Comandar é aceitar a solidão como companhia, deixando-se seguir por dois princípios fundamentais: «A Deus o que é de Deus e a César o que é de César», «Bem com o Rei por amor aos homens, mal com os homens por amor ao Rei».


Quem quiser que escolha!

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por Luís Alves de Fraga às 09:30


5 comentários

De Anónimo a 08.11.2005 às 21:52



Pois, pois! Hoje em dia já ninguém acredita que se põe a carreira em risco por ideais. Haverá sempre algum manhoso pronto a segurar o toiro pelos cornos.
Os politicos, mestrados em manha, sabem isso e sabem que o lugar estará sempre ocupado, valem-se disso para subjugar quem dedica uma vida à Pátria. Espero que estes senhores quando se vejam ao espelho e consigam encarar a tristeza que são, se valeu a pena a submissão...

MadaFaca
</a>
(mailto:)

De Anónimo a 07.11.2005 às 15:22

Errata:
"à falta de carisma"
"orgulho de se terem como chefes"
"se revejam nos chefes que temos?"
"actuais chefes militares eram"Gladium
(http://Linha de Fase)
(mailto:bambinofr@Gmail.com)

De Anónimo a 07.11.2005 às 15:17

Caros,
O problema é mais profundo. Na minha modesta opinião, atende á falta de carisma dos líderes. Hoje os políticos impõem-nos líderes institucionais sem carisma, sem lhes ser inata a capacidade de mobilização dos subordinados para os seguirem, falando deles com o orgulho de soterem como chefes. Eu cheguei a falar assim de alguns que eram líderes independentemente do posto, porque lhes era inata tal característica. A institucionalização da líderança era secundária uma vez que era no homem que os subordinados se reviam.
Hoje os líderes são de escolha política, isto é, quanto maior for a capacidade de se colocarem de cócoras, mais possibilidade têm de ser "estrelados". Ninguém se revê neles e muito menos os respeita. Respeita-lhes é os galões, porque esses são um símbolo de comando institucionalizado e com valor histórico. Ao homem por debaixo deles, respeita-se ou não.
Hoje já se começaram a punir homens que foram às tais passeatas, um general está na calha para o mesmo destino, e querem que os homens se reveja nos chefes que temos?
Eu, apesar de estar na reserva, não me revejo nesses invertebrados, dos quais, alguns vi a fazerem continência a três tempos, sendo o último a vénia.
Ainda recentemente o titular do cargo de Ministro da Defesa, em cerimónia no Forte de S. Julião da Barra, sua residência oficial, estando o hino nacional a ser executado, uma guarda de honra a prestar continência a uma entidade, o "meco" não saiu do carro. Cá fora o oficial à ordens ou ajudante de campo, ou lá o que é, prestava a devida continência.
Chovia, talvez por isso o titular do cargo não se quisesse molhar, já que é altura de as chuvas limparem aquilo que os serviços municipalizados não limpam.
Como pode haver união se a maioria dos actuais chefes militares erma os perseguidores dos sargentos há uma década atrás?
A classe política soube dividir para reinar e os actuais chefes militaes esqueceram a máxima que os deveria nortear:
Per Patria semper per Rex paucas.
Pela Patria sempre, pelo Rei algumas vezes. Gladium
(http://Linha de Fase)
(mailto:bambinofr@Gmail.com)

De Anónimo a 07.11.2005 às 14:01

Excelente artigo de opinião. "Alijar a responsabilidade para cima de quem a deve ter ", essa deveria ser a postura das chefias, o dilema não é delas (se não tiverem contribuído por acção ou omissão), ou a subserviência também exige que as chefias assumam os actos e erros do ministro?
O problema da agricultura deve ser encarado do ponto de vista do agricultor e não do fruto. As maçãs podres tinham brilho, cheiro e sabor até ao momento que o "agricultor" permitiu o corte da água (fonte de vida) e a "poda" aleatória, feitos pelo ministro, que neste caso nem sequer da Agricultura é! Se os "agricultores" vizinhos estão sempre à espera que algo de mau aconteça nos terrenos do seu semelhante, para lhe usurparem as terras ao desbarato...
...Já não será um problema Agrícola ou de Defesa, será um problema de ética e decência, ou a aspiração de subir à árvore a todo e qualquer custo, inclusivé a honra!
Só espero que não subam a uma árvore seca, com as raízes cortadas, poderá caír não permitindo a fuga dos "trepadores".
Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 07.11.2005 às 11:51

Gostei. Mais uma vez se levanta a questão da legitimidade dos chefes militares para tratarem problemas da classe. Mas o pior, como disse, é que um acto "louco" de um Chefe de EM tem pouca repercussão na máquina do governo. Aparece logo uma fila de voluntários para ficarem com as tais "estrelas envenenadas" Quanto à opinião pública, desde que o hara-quiri não tenha influência nos resultados do futebol, tudo bem. "Eles" até nem gostam dos militares. Mudando de asunto, gostava que lesse o meu artigo "A guerra ni Iraque" no arquivo de Março do "deprofundis". Um abração deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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