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Fio de Prumo



Terça-feira, 08.11.05

Orçamentos exíguos e o bem-estar das tropas

Segundo fontes da comunicação social, o orçamento do Ministério da Defesa não terá sofrido cortes significativos, especialmente, se comparado com outros. Diz-se que é uma medida para «adoçar a boca» aos militares. Tenho outro entendimento do facto, embora me limite a comentá-lo sem apoio em nenhuns elementos concretos.


Muito provavelmente o orçamento do Ministério da Defesa Nacional não é mais penalizado, porque se o fosse afectar-se-iam actividades intocáveis. Neste domínio estão as que garantem o bem-estar das tropas. E aqui, tem de se entender bem-estar como o mínimo de condições de vida, porque, em tempo algum, nas unidades militares do nosso país se gozaram de excessos ou de supérfluos. Tudo foi sempre bem contado, medido e regrado. Aliás, a austeridade de vida e, até, um certo desconforto fazem parte de parâmetros de prontidão militar, pois a abastança e comodidades, para além do estritamente necessário, geram lassidão comportamental incomportável na actividade castrense. A suficiência é a medida exacta que está nos limites dos quartéis, bases ou unidades navais. Dir-me-ão os mal-intencionados: — Mas trata-se de uma noção subjectiva!


Claro que estou a falar de conceitos subjectivos, mas experimente o leitor a passar pela subjectividade em causa! Perceberá, então, que me refiro a mínimos, tão mínimos, que qualquer pequena benesse é sentida como um luxo.


Sem receio de ser desmentido, posso garantir que nenhum organismo estatal gere melhor os dinheiros que lhe são confiados do que os militares. Nenhum! A prestação de contas faz-se com regularidade pendular todos os meses e, no final do mês de Fevereiro de cada ano, a contabilização dos dispêndios do ano transacto está encerrada com todos os pagamentos efectuados. Os casos de excepção, a havê-los, resultam sempre de terceiros e não dos serviços administrativos militares. É uma regra sagrada que se cumpriu e cumpre com o mesmo rigor que se efectua a vigilância das instalações e aquartelamentos. Não há falhas! Conseguissem os oficiais de Administração imprimir o mesmo controlo em todos os serviços do Estado e, nem o saldo negativo seria o que é, nem as contas andariam ao desbarato sem se conseguir responsabilizar quem determina a confusão e o desgoverno.


Um controlo desta natureza assenta em uma grande disciplina e num claro sentido da hierarquia: só manda gastar quem tem autoridade para tal e só gasta quem tem competência para o fazer. Assim, os serviços estão montados para, com antecedência, planearem as necessidades, elaborando os convenientes pedidos a quem de direito. Tivessem os senhores ministros a coragem de impor nos seus Ministérios a disciplina e austeridade das unidades militares e Portugal seria outro país! Perderiam, naturalmente, esse extraordinário poder discricionário de fazer favores a quem melhor entendem com os dinheiros que não lhes pertencem. Todavia, a Nação ficaria grata!


Voltando ao bem-estar das tropas e ao orçamento, há dois aspectos que nem o ministro Luís Amado, nem os comandantes militares podem ou devem descurar: a alimentação e o estado sanitário dos militares.


No primeiro caso, a comida deve ser abundante e de boa qualidade, evitando-se toda a espécie de alimentos menos aconselhados à saúde, em particular aqueles que, previamente, sabe-se geram altos índices de colesterol, por exemplo. O facto de o contingente militar ser constituído por cidadãos ainda jovens não invalida que se tenham cuidados redobrados de modo a manter-lhe o bom estado de saúde. Longe vão os tempos em que o valor da vida humana estava cotado abaixo do de qualquer artefacto militar e que, por isso, se dizia, com propriedade, que os homens eram «carne para canhão». Nos tempos que correm, a ter de se sacrificar alguma coisa, sacrificam-se as máquinas não só com base em princípios economicistas de poupança — quase sempre, é mais compensador manter vivo o operador do que perdê-lo em detrimento dos engenhos — como, e especialmente, na actualidade se tem um mais apurado sentido do valor da vida e do capital que ela representa. As chamadas armas inteligentes, procurando evitar efeitos colaterais — vítimas desnecessárias — vêm provar à saciedade esta perspectiva. Cabe aos chefes militares a preocupação de vigiarem, ou mandar vigiar, os serviços para que, se necessário for, cesse a actividade operacional sem que se sacrifiquem os homens e a sua saúde. Um militar saudável sai sempre mais barato ao Estado do que um soldado enfermo.


Como o rendimento operacional de uma força armada depende do seu estado de saúde seria conveniente que os chefes militares equacionassem a possibilidade de todos os efectivos na situação de activo fazerem, obrigatoriamente, um exame sumário às suas condições físicas, passando, como é evidente, por um exame radiológico pulmonar e análises sanguíneas para detecção de dependências ou uso de drogas, presença de HIV, e outros males menores. Igualmente a tal seriam obrigados os militares na situação de reserva, passando por exames mais complexos que incluíssem as consultas de cardiologia. Por fim, deveria haver instituído um controlo semestral para todos os militares na situação de reforma, repartindo os exames e consultas de várias especialidades por cada um dos semestres. Se assim fosse feita uma medicina preventiva aos militares das três situações — activo, reserva e reforma — muito provavelmente os três hospitais não chegavam para «as encomendas» (sem contar com o apoio às famílias!). Mas nada disto é feito a não ser para o pessoal navegante da Força Aérea e para as tropas aerotransportadas! Onde se gastam as energias e os orçamentos dos hospitais militares? Qual a necessidade de juntar os Serviços de Saúde se se seguir um projecto como aquele que acabo de delinear? Actuando como o sugerido não se estará a dar um grande contributo para o benefício da saúde pública? Não se estará a «alinhar por cima», ao contrário do que faz o actual Governo? Será difícil, na era da informática gerar um sistema de controlo de modo a criar uma rede de prevenção sanitária militar? Não sairá mais económico ao Estado pagar uma deslocação de um militar reformado e residente na província para vir um dia, em cada semestre, a Lisboa fazer exames clínicos preventivos do que ficar à espera que ele adoeça com gravidade e tenha de sofrer intervenções urgentes e internamentos prolongados?


Cabe aos Chefes militares dos três ramos das Forças Armadas serem capazes de implementar medidas que vão no sentido da defesa do bem-estar dos seus subordinados, demonstrando ao ministro da Defesa Nacional que, sem aumentos de despesas, só alinhando por cima se governa um país rumo ao futuro e à felicidade possível. As Forças Armadas reúnem condições para se tornarem no exemplo que a Nação precisa, assim os Comandos saibam exigir rigor em todos os sentidos.

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por Luís Alves de Fraga às 08:22


2 comentários

De Anónimo a 09.11.2005 às 16:51

Ingenuidade minha! Julgava que o rigor na prestação de contas nas organizações estatais era igual em todos os ministérios... Estou a lembrar-me da dor de cabeça no fim das comissões no Ultramar em que tínhamos que pagar os parafusos que faltavam nas viaturas! Maus tempos, porém...deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 09.11.2005 às 13:02

Se todos os problemas das FA's se resumissem aos que refere... O problema é estrutural e enquanto não existir coragem para promover uma reestruturação profunda, reduzindo Quadros, Unidades,etc, adaptando as FA's às necessidades actuais, não se resolvem problemas só se agudizam. Eu agora, confesso que até acho piada a esta problemática das Associações e das "reuniões", quando no inicio deste associativismo eram apelidados de comunistas (até houve quem fosse punido)e hoje aparecem como menbros das mesmas, enfim mudam-se os tempos. Enquanto o poder político não demosntrar vontade de resolver este problema de uma vez por todas estas situações vão continuar. Estou Farto
(http://estoufartinho.blogspot.com)
(mailto:ajlgoncalves@hotmail.com)

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