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Fio de Prumo



Sábado, 12.11.05

Informação manipulada

Quem hoje tiver oportunidade de ler, pelo menos na versão on-line, o Diário de Notícias topa com um exemplo perfeito de como, sob a capa informativa, se manipulam dados, na fronteira do subliminar, espargindo doses de letal «veneno» de informação perversa, ou seja, dirigida à construção de uma opinião pública errada.


Diz o matutino em causa que, até Setembro do corrente ano, houve aumento do número de funcionários do Estado, em vez de redução, ficando a dever-se essa diferença, segundo valores fornecidos pelo Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE), à admissão de mais 4.000 militares contra uma saída, para a reforma, de somente 693. Justifica-se o saldo positivo também com a entrada nos serviços de administração local de mais 2.935 funcionários contra uma saída de 1.404.


Não satisfeito, o periódico, acentua que de 1998 a 2004 houve um aumento de 28.000 militares e de 22.000 funcionários da administração local.


Diz o articulista que «O STE exorta o Governo a definir as funções que o Estado deve manter e, só depois, reestruturar os serviços». Conselho sensato, não fossem os números anteriormente indicados!


Quem lê esta notícia é «suavemente empurrado» a concluir que cabe aos militares e às edilidades a responsabilidade do aumento do número de funcionários. Pela administração local nada posso dizer, todavia, no que respeita à actividade castrense julgo ter conhecimentos gerais para falar.


Em primeiro lugar, interessaria perceber que «militares» estão incluídos nos 4.000 e nos 28.000, porque, sob esta capa, podem figurar forças de segurança militarizadas, como é o caso da GNR, facto que separa as águas, pois os ministérios tutelantes são independentes.


Em segundo lugar, e que se torna mais grave, é o «esquecimento» de dizer que, entre os anos de 1998 e 2004, se foi extinguindo o serviço militar obrigatório, dando-se início à contratação, por tempo limitado, de um contingente profissional. Houve que substituir parte daquelas funções, antes desempenhadas por soldados em regime de conscrição, por militares com vínculo mais prolongado ao Estado. Escamotear este elemento é, maldosamente, tentar insinuar uma mentira capaz de envenenar a opinião pública.


Finalmente, quando se informa sobre o movimento de incorporações e licenciamentos em 2005, joga-se com clara má-fé ou ignorância muito atrevida. A ser este o caso, o STE deveria esclarecer-se primeiro e só depois pôr a circular os números. Vejamos: os quatro milhares de homens e mulheres incorporados não se destinaram a «aumentar» efectivos, mas tão só, certamente, a substituir igual número (ou próximo) de militares que, tendo chegado ao termo do seu contrato com as Forças Armadas, foram licenciados, sem passarem a ser pensionistas; no entanto, as quase sete centenas referidas foram os militares que transitaram para a reforma por terem atingido o limite imposto pela lei para a sua situação.


Assim colocadas as questões todo o panorama informativo é diferente. Muito diferente e põe bem a claro a (des)informação que nos é fornecida pelos nossos órgãos de comunicação social, demonstrando que não sabem fazer o «trabalho para casa», facto bastante lamentável.


Mas lamentável é, também, que as 2.as Divisões dos Estados-Maiores das nossas Forças Armadas não tenham uma repartição vocacionada para a análise da comunicação social com vista a dar imediata reposta a desaforos, distorções e outros atentados à verdade completa, fornecendo os respectivas esclarecimentos públicos através de comunicados da responsabilidade dos Chefes. E isto é tanto mais estranho quanto sei que — pasme-se —, em 1916, um Corpo de Exército (enquadrando duas ou três Divisões) das forças aliadas na Grande Guerra tinha direito a comunicado autónomo na imprensa internacional. Não terão a Armada, o Exército e a Força Aérea nacionais direito a tal possibilidade, relativamente aos órgãos de comunicação social portugueses, sem uma dependência humilhante e desnecessária do Ministério da Defesa? Senhores generais, como coronel, na reserva, estou a desempenhar o meu papel, desempenhem V. Exas. o vosso.

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por Luís Alves de Fraga às 11:59


5 comentários

De Anónimo a 12.11.2005 às 23:23

Lembrei-me agora e corrijam-me se estiver enganado, um ou o alto responsável das Relações Públicas do Exército,agora na reserva, não anda por aí num canal de T.V. a brincar à "tropa"?
Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 12.11.2005 às 23:22

Caro Fraga. Claro que a comunicação social privada não tem nada de inocente. Só que, no meu comentário, não pretendi enveredar por juízos de valor. Apenas quis focar que as coisas são como são e não como deviam ser. Quanto às chefias militares, o nosso amigo Camoesas pôs o dedo na ferida. E muito bem. Á laia de conclusão eu diria que não querem porque não podem.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 12.11.2005 às 23:10

Não sei se todos os ramos têm Relações Públicas, pelo menos a FAP tem, de tempos a tempos saem nos OCS referências às R.P. da FAP, a última que me lembro foi acerca do acidente do TAP nos Açores, em que depois de acusados públicamente em todos os OCS, os Controladores militares, as R.P. da FAP não comentaram, nem mesmo depois de ser tornado público (mas pouco públicamente) que agiram profissionalmente sem erro algum da sua parte. Deduzo que todos os ramos tenham Relações Públicas.

Tenho apenas duas hipóteses para o silêncio nesse e noutros casos; Querem e não podem ou podem e não querem ...Tal como a questão filosófica sobre Deus permitir o sofrimento dos humanos inocentes!
Se pode e não quer acabar com o sofrimento dos inocentes, então é um deus mau. Se quer e não pode, é impotente, logo não é Deus!
Se as Relações Públicas podem e não querem, não comento sequer, é óbvio. Se querem e não podem, não são merecedoras dessa designação (Relações Públicas), não fazem o serviço que deviam, são nesse caso impotentes e um instrumento ao serviço dos políticos.Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 12.11.2005 às 22:16

Caro Costa Monteiro, precisamente por os órgãos de comunicação social usarem destes «iscos» (embora seja bondosa a sua teoria da «inocência publicitária») é que se torna necessária a correcção da informação. Mesmo passando por botas de elástico, compete aos responsáveis pelas instituições atingidas repor a verdade. As Chefias militares não conseguirem o direito ao «comunicado oficial» resulta, afinal, de os generais não cumprirem o seu papel. Pela minha parte «chego-lhes fogo»...Luís Alves de Fraga
</a>
(mailto:luismfraga41@hotmail.com)

De Anónimo a 12.11.2005 às 16:18

Correndo o risco de me tornar repetitivo — algures na blogosfera já me referi a este tema —, quero lembrar que a comunicação social privada NÃO É um serviço público. É uma máquina de vender publicidade, que é o que dá dinheiro. Para isso, terá que servir-se de iscos atraentes, as notícias. Há que agradar, nem que para isso tenham que enveredar pela mentira ou pela meia verdade. E é bom que tenhamos em mente que hoje é arriscado dizer certas verdades que, por não agradarem ao público ou a certos "intelectuais", ninguém tem a coragem de as dizer, para não ser acusado de bota de elástico, fascista, autoritário, etc. E defender as Forças Armadas está fora de moda. Quanto às chefias militares se tornarem independentes em termos de comunicação social é algo que nenhum governo se pode dar ao luxo de autorizar. Por razões óbvias.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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