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Fio de Prumo



Domingo, 12.01.14

Panteão Nacional

 

O que é um panteão nacional?

Esta é, julgo, a pergunta que se tem de fazer para definir quem e porquê deverá ter como última morada o lugar consagrado por um povo aos que dentro dele foram grandes em vida.

Não sendo exaustivo na resposta – as respostas muito longas são, por regra, as piores de todas – direi que um panteão nacional deverá ser o local onde repousam, real ou virtualmente, os restos mortais dos cidadãos que, pelas suas obras em vida, traduziram a alma, a essência, o carácter e as virtudes desse mesmo povo; aqueles que, se fosse possível existir uma santificação laica, seriam eleitos para figurar na “corte” “celestial” da pátria desse povo. Cada túmulo guardaria, pelo menos, uma virtude cívica a ensinar às crianças, pois nelas repousa a continuação da cultura, isto é, da maneira de estar e de ser de um povo na Terra.

 

Este é o meu entendimento de um panteão nacional. Assim, é à luz de tais traços que posso conceber o Panteão Nacional português. Um local que está e fica simbolicamente sempre acima de todas as tricas, de todos os interesses mesquinhos dos vários grupos sociais e, principalmente, acima dos regimes políticos. Ali não deverá ter lugar o que é efémero, mas somente os valores perenes da Pátria.

 

É por isso que raramente visito o nosso Panteão! Interrogo-me sobre a razão de lá estar o marechal Carmona, Sidónio Pais, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e, desculpem-me, Amália Rodrigues, para citar os mais evidentes e polémicos no meu ponto de vista. Ali deveria ser o lugar onde repousariam todos os que, no dizer de Camões, «da lei da morte se foram libertando».

Mas libertaram-se como? Porque se tornaram inesquecíveis ou porque se transmutaram em símbolos do carácter nacional?

 

E é neste aspecto que eu fundamento a minha questão... O carácter nacional! É este um dos mais polémicos elementos que nos une e nos divide: o nosso carácter!

Como somos nós? Como nos distinguimos dos restantes povos? Como nos individualizamos? Quem, afinal, podemos dizer que nos representa? O anónimo emigrante ou o conceituado poeta? O heróico soldado ou o mais sacrificado de todos os santos? O ignaro cidadão de enxada às costas ou o escritor laureado pelo mundo e pela crítica? O explorador de continentes e executor de êxitos sem limite ou o “self-made man? O político impoluto e respeitado ou o comerciante e homem de negócios benemérito? O atleta que se consagrou no mundo do desporto ou o actor que levou o nome de Portugal para o estrangeiro? O professor e pensador de primeira grandeza no seu tempo ou o aluno carregado de estigmas físicos que se superou até conquistar o direito de ser exemplo?

 

Vedes a dificuldade de “santificar” no “paraíso celeste” da Pátria um de entre muitos exemplos?

Se não déssemos, enquanto povo e enquanto dirigentes, ao longo dos tempos, tão pouca importância ao estudo das Ciências Sociais e Humanas talvez já tivéssemos sido capazes de definir o carácter dos Portugueses. O nosso carácter. Mas preocupamo-nos tão pouco em conhecermo-nos! Damos muito mais importância ao conhecimento dos outros povos para os bajularmos e copiarmos, na maior parte das vezes, mal! E essa é também uma característica nossa!

É difícil fazer o nosso retrato! Olharmo-nos ao espelho e vermos quem somos e como somos com o realismo de uma objectiva fotográfica. Mas só quando o fizermos o nosso Panteão Nacional albergará aqueles que nos alicerçaram o passado e nos garantem a continuidade no futuro. Se o não fizermos, esse Panteão será, afinal, de forma imperfeita, o nosso retrato mais próximo, pois albergará todas as contradições de que somos feitos e com que singrámos ao longo da História, aos tombos, só seguros por meros acasos que alguns atribuem a virtudes taumatúrgicas de uns quantos “salvadores da Pátria e da honra nacional”.

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por Luís Alves de Fraga às 21:25



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