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Fio de Prumo



Segunda-feira, 08.07.13

Grande Guerra, Ditadura e fim de um ciclo

 

Não vou entrar aqui a discretear sobre as causas da Grande Guerra. Há sítios onde o fiz e estão disponíveis. Nem, ao menos, justificar a razão da entrada de Portugal no conflito militar. Vou, todavia, convidar os meus leitores, a acompanharem-me num raciocínio que a distância, os factos e a ponderação cautelosa do presente e do passado recente permite.

 

A Grande Guerra foi, indiscutivelmente o confronto entre os capitalismos nacionalistas mais poderosos do final do século XIX: Alemanha, Grã-Bretanha, França, Rússia e, na fase final, EUA. O confronto que o brutal crescimento dos capitalismos pátrios impunha para ultrapassar o estádio limitado por fronteiras para se tornar avassalador e imperial redundou num conflito militar de largas proporções, que serviu, também, objectivos menores e nacionais. O conflito armado, ao cabo de quatro anos de morticínio e destruição, veio recolocar os capitalismos num plano mais recuado do que no início da guerra, pois todos saíram derrotados, de um modo ou de outro, com exclusão de um que se recolheu, depois de lançar sementes de discórdia e modernidade no Velho Continente, ao seu refúgio de além Atlântico: o dos EUA.

A economia europeia estava destruída, desconjuntada, desarticulada. Pô-la de pé implicava refazer o projecto demoliberal do século XIX ou encontrar outras saídas para velhos problemas inerentes à livre concorrência novecentista. E foi o que aconteceu.

Realmente, na Rússia caiu a monarquia e nasceu um novo sistema económico e político que visava acabar com a exploração do homem através da super-valorização do capital; na Itália, ainda que monárquica, surgiu a ideologia fascista que, pelo menos teoricamente se opunha aos desmandos do capitalismo nacionalista do século XIX através da intervenção do Estado na regulação das forças em permanente confronto: o capital e o trabalho. Nos restantes Estados europeus debatiam-se as massas populares desempregadas e famintas para encontrarem ou se encontrarem num dos dois modelos referidos ou em qualquer variante deles saída. Portugal não fugiu ao padrão do pós-guerra: o anarco-sindicalismo procurava um espaço para se implantar num Estado e numa política que se balançava entre o modelo ultrapassado do século anterior e morto com a Guerra e o outro de matriz fascizante, que mais fácil parecia impôr-se, pois ia ao encontro dos anseios de uma pequena burguesia urbana martirizada pela elevada inflação financeira. Como se sabe, foi este o caminho seguido, em 28 de Maio de 1926, pelo Exército dividido e repartido politicamente.

 

Aquilo que ainda hoje parece, aos mais desatentos observadores da História, da Política e da Economia Política, meros fenómenos nacionais foram, no entanto, largos passos, na definição do fim de um ciclo do capitalismo – que se teve de balizar pela social-democracia e o keynesianismo importado dos EUA, por um lado, e, por outro, o socialismo soviético – para dar origem a um outro cujo epílogo se vem a verificar, anos mais tarde, com a implosão do bloco de Leste.

O tempo que mediou entre 1914 e 1989 foi um “intermezzo” que levou o capitalismo dominante dos EUA a redefinir formas e modos de estar, pois não tendo sido afectado pelos efeitos da Grande Guerra nem da 2.ª Guerra Mundial, sofreu a contradição do super-desenvolvimento ao viver a crise de 1929 que o levou a aceitar o Estado como parceiro regulador. Assim, não tendo “importado” a crise da Europa gerou-a localmente determinando uma solução que não andou longe das que no Velho Continente procuraram encontrar resposta para o ciclo em fase de desgaste que havia sido herdado do século XIX.

 

O capitalismo global que, sem freio nem bridão, galopou o mundo e se tornou avassalador está a viver o seu ciclo de existência, todavia, trata-se de um ciclo que já dá nota de se encontrar em fase de mudança. A crise europeia – na crista da qual se encontram a Grécia e Portugal – as “Primaveras” islâmicas, os “desconfortos” latino-americanos, a ainda latente, mas a todo o tempo esperada, “viragem” chinesa e indiana indiciam hoje, como ontem – no pós-guerra de 1914-1918 – as multidões famintas indiciaram, um novo ciclo político e, consequentemente, financeiro e económico que alterará a face da vida e o modo de os povos se comportarem. O capitalismo encontrará novas soluções para sobreviver, porém, resta saber se se deixará dominar pela política – isto é, pela vontade dos povos – ou se se transfigurará no mais aguerrido dos Cavaleiros do Apocalipse.

 

Tal como na madrugada de 9 de Abril de 1018, na Flandres, no sector português, o nevoeiro ainda não permite perceber a envergadura dos acontecimentos que nos vão cair em cima.

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por Luís Alves de Fraga às 15:21



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