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Fio de Prumo



Terça-feira, 15.11.05

Um pouco ao acaso

Ontem vi e ouvi o Prof. Cavaco Silva na entrevista concedida à TVI.


Fiquei arrepiado. Já me tinha esquecido da pose daquele que se tornou, de facto, responsável pelo gosto consumista dos Portugueses e pela irresponsabilidade de investimentos pouco claros e nada transparentes numa altura da História em que poderíamos ter aproveitado para lançar ao solo sementes de produtividade assegurada.


Gabava-se o candidato do crescimento de 4% ao ano, nunca alcançado em Portugal, durante a sua década de Governo. É inaudito o descaramento! Faz-me lembrar aquela frase que nós dizíamos, no meu tempo, quando garotos mais velhos e mais fortes nos ameaçavam fisicamente: — Com as calças do meu pai, até eu era homem!


Com o dinheiro da Europa a ser despejado, literalmente, despejado sobre Portugal, melhor seria que não tivesse havido crescimento! O que importa não é o que ocorreu na altura. Importante é saber o que não se foi capaz de controlar para reproduzir esse crescimento nos anos seguintes.


Cavaco Silva apresenta-se como alguém que diz: — Foi no meu tempo que esta família recebeu uma herança de vários milhões, porque provei que éramos legítimos herdeiros. Dei-vos o dinheiro que vocês nunca poderiam ter ganho na vossa vidinha de zelosos trabalhadores. Respondem os herdeiros: — Mas senhor, agora estamos pobres, outra vez! Replica: — Mas eu fiz de vocês gente rica.


Para Cavaco Silva ter a resposta merecida havia que o reprovar nas urnas, porque corresponderia a afirmar: — Fez de nós gente rica, mas não nos ensinou que as fortunas são, especialmente, para serem investidas, caso contrário representam um fósforo aceso na escuridão das nossas vidas. E o senhor não montou um sistema de vigilância dos nossos gastos. Somos irresponsáveis, mas o senhor, além de mais irresponsável, é culpado, porque tendo obrigação de nos tutelar, deixou-nos livres.


Claro que um discurso destes não faz dos outros candidatos gente de melhor calibre. Há até aqueles que, de certa maneira, foram com ele coniventes, porque poderiam ter exercido a sua acção correctora — cada qual ao seu nível — e não o fizeram.


Cavaco Silva para evitar a responsabilização que se lhe pode assacar, escuda-se num discurso tipo «cassete» — seguindo o exemplo repetitivo e irredutível de Álvaro Cunhal nos seus tempos áureos —, mas sem o vigor, a vivacidade, a ironia e, por vezes, a bonomia do falecido líder do PCP. Parece um autómato a debitar o software com o qual foi programado. Saem-lhe as frases feitas, os chavões, que escondem um projecto — ou talvez não escondam nada! — inconfessável aos Portugueses.


De Cavaco Silva já chega.


Em Lisboa clama-se — alguns, poucos, mas bons! — contra a ideia de transformar num condomínio de luxo o edifício onde, durante muitos anos, esteve instalada a sede da PIDE/DGS — na rua António Maria Cardoso, ali para as bandas do Chiado. Quem protesta quer que se faça, naquele espaço, um museu do fascismo (ou da ditadura, se preferirem) que recorde o que foi o Estado Novo e a mordaça imposta pelo terror aos Portugueses.


Aceito a ideia, porque de «brandos costumes» estou farto. Estou farto de saber que há trinta e um anos se pagam e pagaram pensões aos antigos agentes e responsáveis da PIDE/DGS, enquanto se regateava o dinheiro para a modernização das Forças Armadas e, agora, se lhes cortam as poucas regalias que possuíam em termos de assistência sanitária. Estou farto, porque ainda há vinte e cinco anos atrás havia, na Bélgica, indivíduos a quem não era concedido o direito de voto por terem colaborado, durante cinco anos, com os Alemães, na Segunda Guerra Mundial. Note-se bem, cinco anos! Em Portugal tivemos de ditadura 48 e de Estado Novo, 41. Que exemplo damos ao mundo?!


Faça-se o museu e, para aproveitar o edifício, faça-se, também um outro sobre a Inquisição, pois esta conformou a mentalidade dos Portugueses durante séculos! Não duvido que, se somos como somos, muito se deve à influência da Santa Madre Igreja Romana e ao Tribunal do Santo Ofício.


E como o nosso inconsciente é maravilhoso, por uma qualquer associação de ideias — que, por acaso, até identifico com muita clareza — vem-me à memória a notícia de sábado passado, saída no Expresso, anunciando que o edifício onde funcionou durante trinta anos, depois de lhe fazerem obras, ia passar a ser a sede do Barcklays Bank, em Portugal.


Não restam dúvidas que é motivo para aparecer na primeira página do semanário em causa. Contudo, para mim, mais importante do que o prédio da Avenida Duque de Palmela ter abrigado aquele jornal durante três dezenas de anos, é o facto de nele ter residido, antes de se ter radicado definitivamente em Paris, o único estadista português do século XX, a quem me referi em crónica anterior, Afonso Costa.


Figura ímpar da 1.ª República, a ele se deve a Lei da Separação das Igrejas do Estado, o Registo Civil, a expulsão das ordens religiosas do país, a supremacia do laico sobre o clerical, a criação da Universidade de Lisboa, a fundação do Instituto Superior Técnico, a reforma fiscal de 1912, a Lei do Divórcio, a participação de Portugal na Grande Guerra e tantas mais acções que seria fastidioso enumerar.


Foi num dos andares daquele edifício que a família do estadista viu sair pelas janelas, direito à rua, o recheio da sua casa, os papéis do governante, quando a populaça tresloucada pela demagogia do acto revolucionário de Sidónio Pais — o precursor do fascismo no nosso país —, em Dezembro de 1917, assaltou o prédio e, no mais puro acto de vandalismo, nada poupou. Foi assim que os lisboetas, na época, «agradeceram» ao único homem que teve a coragem de arrostar com a destruição de males que há séculos estavam enraizados entre nós, permitindo o obscurantismo e a ignorância.


Na parede, junto à porta, já lá devia figurar uma lápide comemorativa da passagem por aquele local desse Homem — o político que desejou ardentemente a modernização de um povo e de um país — tal como noutros edifícios figuram iguais recordatórias de gente que menos importância teve nos destinos nacionais. Foi o obscurantismo dos Governos de Salazar e Caetano quem fez «esquecer» Afonso Costa.


Ide a Paris e vede como, em certas paredes, figuram pequenas lápides recordando gente anónima que foi morta às mãos dos Alemães. Por lá, sabe guardar-se a memória do passado... Por cá, os «brandos costumes» têm a virtude dos melhores detergentes: ao lavar, fica tudo mais branco! Que tristeza...

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por Luís Alves de Fraga às 11:28


1 comentário

De Anónimo a 15.11.2005 às 20:55

Admiro a sua paciência para ouvir políticos!deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

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