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Fio de Prumo



Domingo, 23.06.13

História sintética de um modelo económico

 

O capitalismo financeiro nasceu como consequência da Revolução Industrial e o mercado de consumo resultou desta: são frutos da mesma árvore.

 

Desde sempre, o sistema de produção capitalista teve necessidade de ampliar dois vectores de um mesmo sistema de forças: o mercado fornecedor de matérias-primas e o mercado consumidor de produtos acabados.

A grande margem de lucro vinha da compra de matérias-primas a baixo custo e da venda dos produtos ao mais alto preço. Mas este modelo tinha, se não sofresse alterações, um limite: o poder aquisitivo dos compradores. Para que o modelo não morresse, foi preciso conjugar efeitos: produzir mais barato e ampliar o mercado de compradores. Mas estes efeitos eram, em última análise, antagónicos, pois a exploração da mão-de-obra produtora reduzia o número de compradores, já que o mundo não é só feito de gente rica e capaz de consumir o que se produz.

Para vencer o efeito negativo da exploração máxima da mão-de-obra, os produtores – o mesmo é dizer, os capitalistas – tiveram de estudar um processo de produção que, permitindo aumentar os salários dos trabalhadores, ou, no mínimo, não o baixando mais, baixasse o custo de produção. Foi assim que nasceu a produção em série ou também designada por taylorismo. Produzindo muito, com menos mão-de-obra e mais máquinas, podia vender-se muito e mais barato, ampliando o lucro através da pequena margem obtida (lucro marginal). Mas levantava-se um problema: era necessário que toda a gente desejasse comprar o que se produzia. Assim nasceu a publicidade como grande criadora de necessidades, já que fosse o que fosse que se produzisse, era necessário que se vendesse, logo era imprescindível que se desejasse comprar. Mas, de novo se levantou um outro problema: se os potenciais consumidores não tinham disponibilidades financeiras para comprar o mercado estancava e a produção entrava em colapso. Inventou-se o crédito pessoal para o consumo; “compre agora e pague depois”! Tudo começou pelas simples prestações mensais, depois pelo negócio mais complexo da letra de câmbio e finalmente no crédito bancário. O capital tinha dado as mãos à produção e ao consumo O mercado podia, finalmente, expandir-se até ao “infinito”!

Mas novamente um outro problema se ergueu: a durabilidade dos produtos produzidos. Os consumidores, endividados, faziam contas à vida e concluíam que não podiam comprar mais produtos diferentes para satisfazer as suas necessidades falsamente implantadas na sua consciência ou no seu inconsciente. A solução era simples: em vez de produzir produtos duradouros e capazes de passar de geração para geração, havia que os produzir perecíveis ao fim de pouco tempo de uso. E duas maneiras poderiam ser utilizadas neste processo de adulteração dos produtos: ou torná-los frágeis à nascença ou fazê-los ultrapassar por modelos mais sofisticados ainda que estes fizessem rigorosamente o mesmo que os seus antecessores. E foi através da conjugação dos dois métodos que se resolveu a questão: o mercado continuou a crescer, porque as “necessidades” cresciam a um ritmo alucinante. E para que assim fosse, a publicidade deu uma “ajudinha”: inventou a “moda”, os “modelos”, as “marcas”.

 

Afinal, o capitalismo conseguiu algo de extremamente interessante: o consumidor deixou de precisar de comprar por mera necessidade de “ter” para passar a comprar pela necessidade de “parecer”. Hoje não se compra para ter mas para se parecer que se é mais do que se é!

 

Mas o modelo está em riscos de se esgotar, de implodir, de rebentar “para fora”, de fazer um grande “pum”! Porquê? Porque, na ânsia de conseguir produzir cada vez em maior quantidade e cada vez mais barato para aumentar ilimitadamente as vendas, se transferiu a produção dos centros geográficos onde estava localizado o consumo para centros geográficos onde se produz, mas não consome, porque o preço da mão-de-obra é tão baixo que os produtores não têm acesso ao que produzem. Ora, seguindo por este caminho, regressamos ao ponto de partida aquando da Revolução Industrial no século XIX e, por conseguinte, para ampliar o consumo tem de se incluir no mercado de compra os produtores que hoje não podem consumir porque não ganham para tal e, então, estaremos face a duas questões de difícil solução: ou se mantém essa massa de gente na incapacidade de comprar – o que, por um lado, não agrada ao capitalismo desejoso de produzir mais para vender mais e, por outro, pode gerar uma grande vaga de revolta social nessas regiões – ou se dá capacidade de consumo a essa mão-de-obra barata e os preços sobem, primeiro lentamente e, depois, em flecha, levando à retracção da produção e à falência do modelo. Ora, quer se queira que não se queira, é para esta última situação que se caminha a passos largos. Coloca-se, então, agora e antecipadamente, mais uma questão: o que vem depois? A resposta só nos aponta para um sentido: a exaustão do modelo capitalista que terá de dar lugar a um outro que se auto-regule e, para assim ser, o modelo político que suportou o modelo económico capitalista rebenta por si mesmo para dar origem a um outro que – chame-se o que se chamar – dará existência política ao modelo económico que se auto-regula.

Como conclusão muito primária de um estudo muito sintético só podemos dizer que os modelos capitalistas e democráticos, tal como os conhecemos, estão a esgotar-se. O futuro pertence ao domínio do desconhecido.

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por Luís Alves de Fraga às 19:37


1 comentário

De Fernando Vouga a 28.06.2013 às 09:50

Caro Alves de Fraga

Simplesmente brilhante.
A marcha para a derrocada desta espécie de D. Branca, que é a nossa economia, é irreversível, porque o modelo sempre esteve errado.
Um abraço.

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