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Fio de Prumo



Quarta-feira, 16.11.05

O Rei(s) vai nu

Os jornais trazem a notícia da punição de um cabo de Marinha — o Luís Reis — por ter declarado publicamente que a Armada teria convocado exercícios navais para o dia em que estava prevista a manifestação dos militares, contestando as medidas governativas, facto, obviamente, falso segundo todos os órgãos responsáveis por aquele Ramo das Forças Armadas. E digo obviamente, porque, mesmo que fosse verdade, passava a não ser, por falta de possibilidades de o cabo Reis demonstrar o contrário. É exactamente como as contas telefónicas astronómicas, que nos aparecem em casa, de chamadas que nós não fizemos. Temos de pagar, visto o elemento de prova estar na companhia fornecedora do serviço. O capitão Dreyfus não foi condenado a prisão por espionagem quando, efectivamente, era inocente?


O Regulamento de Disciplina Militar (R.D.M.) é um código ético de conduta e, em termos de ética, a fluidez é extraordinária por falta de objectividade. O cabo Reis infringiu um qualquer dever de um qualquer artigo desse código de conduta. Porquê? Disse uma mentira. Uma mentira que podia (pode, pôde) ter influenciado a opinião pública! Realmente o que falta é a existência de códigos éticos, postos em execução por decretos governamentais, para permitirem a punição de todos os «Pinóquios» desta nossa sociedade civil!


O cabo Reis, homem com 40 anos de idade — dos quais, se calhar, metade passados ao serviço da Armada — disse uma mentira. Uma mentira menor à qual os Senhores almirantes decidiram dar grande importância, mais para servir de «medida exemplar» do que pelo facto de uma afirmação feita por um cabo afectar o bom nome do Estado-Maior da nossa marinha de guerra.


Sejamos verdadeiros. Desde quando o que diz um cabo na praça pública, nos órgãos de comunicação social, tem importância para os grandes decisores militares? Importante é a «exemplaridade» da punição que visa atemorizar todos os outros cabos Reis dependentes de um magro pré que recebem no final do mês e lhes garante uma super magra pensão quando forem velhos e já não servirem para nada. Bom, para nada não é bem assim! Servirão para guardas-nocturnos de edificações em construção, por exemplo, como acontece a muitos antigos praças calejados no desconforto de um serviço militar mal remunerado e com uma família já habituada às suas ausências do lar.


Sejamos verdadeiros. O que determina a punição não são as afirmações de um cabo, seja ele Reis ou Príncipe. Assusta é o movimento associativo capaz de pôr em causa uma série de pressupostos bem escorados na tradição do «comer e calar».


Sejamos verdadeiros. O que impõe a punição do cabo Reis é a necessidade de dar satisfação ao senhor ministro Luís Amado, provando que, afinal, os comandos superiores das Forças Armadas continuam a «ter na mão» os seus homens. Mostrar a exemplaridade e de como se jugulam as «rebeliões».


Esquecem-se os chefes militares que, mais tarde ou mais cedo, estarão na reserva e na reforma — como eu já estou —, passando por um processo de «elemento descartável», sem poder nem honrarias — vou ter as que o Regulamento prevê para o meu, o nosso, posto, à porta do cemitério quando for deitado dentro daquela «caixa» de madeira que espera por todos os Homens — no qual as pessoas, por mera educação, ainda nos tratam com deferência, chamando-nos «senhor coronel», «senhor general», «senhor comandante», «senhor almirante». Mas é só mera deferência, porque eles, os políticos, sabem que, nessa situação, já só somos um número para a Caixa Geral de Aposentações onde, se se formar fila junto ao guichet dos pagamentos, à nossa frente pode estar um cabo reformado e atrás de nós um general ou uma contínua de qualquer escola deste país.


É esta a vã glória de ser chefe militar, em Portugal! Não se iludam, meus caros camaradas mais modernos e na situação de activo, a reserva e a reforma inexoravelmente esperam por vós!

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por Luís Alves de Fraga às 09:57


5 comentários

De Anónimo a 17.11.2005 às 18:57



O cabo Reis possivelmente falou verdade, existe a possibilidade de ter mentido também, não sei. Pelos vistos, para o seu chefe mentiu, uma vez que já comeu a "porrada".
O cabo Reis é um cabo da Marinha Portuguesa.
O ministro da saúde mentiu, este é apenas um exemplo que refiro por ser o mais recente mas não o único. Então qual será o castigo a aplicar a este senhor.
O Ministro da saúde é um Ministro da Républica Portuguesa.

MádaFaca
</a>
(mailto:cjoaserra@hotmail.com)

De Anónimo a 17.11.2005 às 01:31

Parece que a lista de "processados" (Sargentos e Praças) já ultrapassa a lista de oficiais-generais promovidos...
Com a recente punição ao Cabo Luís Reis (Presidente da Associação de Praças da Armada), já são mais os punidos que os promovidos. Será provavelmente oportuno promover mais um Senhor Oficial-General!
Como alguém muito bem disse na T.V., os militares aínda têm também esta regalia; cumprir as punições e depois de cumprir, queixarem-se ou defenderem-se, se puderem.
Os "moralistas" não querem acabar também com essas regalias e previlégios dos militares???
Os políticos só irão assumir a responsabilidade política ?(aínda não sei o que querem dizer com isso...)
E as "chefias" ?, quando confrontadas com a RESPONSABILIDADE, irão finalmente descartar-se para os políticos? Não serve, não basta, eles (alguns, nem todos )as "chefias", JÁ NÃO SÃO MILITARES, são ESCOLHIDOS políticamente, por políticos, são políticos também.
Talvez por isso, alguns tenham ficado "ofendidos" por ter sido escolhido o nº7 na hierarquia da Armada, entre 8 elegíveis, afinal puxar lustro às botas já não dá brilho que chegue...
Se, e apenas se, agora, em tribunal (porque os militares podem recorrer aos tribunais como as pessoas), for provado que o Cabo Luís Reis não deveria ter sido punido, o que acontecerá? Limpam-lhe a "folha de serviço"? e os dias que esteve detido? Aínda bem que não é permitida a tortura física, porque a psicológca já lhe foi aplicada, a ele e aos familiares. Terá filhos? Os colegas deles, irão apontar o pai como criminoso, como bandido? esteve detido!
E, só se, ele pedir uma indemnização à "TROPA", ao Estado Português, como as PESSOAS podem fazer???

Carlos Camoesas
Filho de militar
Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 16.11.2005 às 14:57

Caro Fraga. Gostaria muito de lhe dizer que não tem razão, blá blá blá, que os nossos chefes blá blá blá, mas (que tristeza!) não posso. É a subserviência que impera, a arrogância que indica o caminho, a mesquinhez que motiva tudo. O caso Reis é desolador. Mas, desgraçadamente, não me surpreende. Parabéns pelo artigo.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 16.11.2005 às 13:23

Senhor Coronel, sim, Senhor Coronel porque apesar de estar na situação de reserva, o Senhor merece esse tratamento, porque senhor demonstra ser e porque os galões honra e digna, pois, até agora(na reserva) defende a justiça e a verdade, nem que elas estejam fardadas de Cabo, um inferior hierarquico.
O grande problema, a meu vêr, é essa palavra "hierárquico", as pessoas sentem-se ou julgam-se apenas superiores às outras e esquecem que só são superiores...hierarquicos. A superioridade, mostra-se, revela-se, como o Senhor Coronel muito bem faz!
Não se trata apenas de deferência, tenho a certeza que a grande maioria dos militares no activo seriam muito mais orgulhosos do que obrigados a tratá-lo assim, como merece, no activo, reserva ou reforma.

Camoesas (filho de militar)camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 16.11.2005 às 11:33

Faço do teu fio de prumo o meu jornal...que gosto
de ler e sobretudo pela honestidade da opinião e
além disso por que comungo dos teus ideais...
Não estou arrependido enveredar pela vida militar,mas amigo é uma tristeza chegar ao fim da vida,já virado mais para o final,e deparar com
esta cambada que tão mal trata ,especialmente as FAs, e no fim de contas o seu povo,em beneficio de uns quantos sanguessugas que vivem de e para os partidos armando-se em sabedores da go(des)ver
nação de um país quase milenário,em decadência.
Um abraço amigo e continua ,como eu continuarei
a bater-me pela democracia em pleno.João Ernesto Fonseca dos Santos
</a>
(mailto:joaoernt@netcabo.pt)

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