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Fio de Prumo



Domingo, 14.04.13

Os nossos sonhos

 

Éramos umas centenas de capitães há trinta e nove anos. Alguns sabiam o que queriam para o futuro de Portugal, mas a grande maioria sabia o que não queria mais para o nosso país e para a sua gente. Tínhamos sonhos e faltavam-nos ideais e ideologias.

 

Fizemos o 25 de Abril de 1974, cada qual na sua “trincheira”: uns, em Lisboa, outros, na Guarda, outros, no Alentejo, muitos na Guiné, bastantes em Angola e um bom punhado em Moçambique. Todos espalhados pelo território de então, vimos nascer o Movimento das Forças Armadas nas primeiras horas da Liberdade.

Lá na Beira, em Moçambique, percebi de imediato que o ciclo do “império” tinha chegado ao fim. Moçambique ia ser dos moçambicanos – fosse isso o que fosse! Meu não era, porque àquela terra só me prendiam recordações e uma filha que lá me nascera na primeira comissão. As minhas, as nossas, raízes estavam em Portugal para onde voltaria depois de ter levado até ao fim a comissão de serviço que me havia sido imposta. Mas sonhava com o futuro da minha gente cá na Europa, cá na Península.

 

No dia 25 de Abril de 1975 votei, votei na cidade da Beira, lá na costa oriental de África, votei para a eleição da Assembleia Constituinte. Já sabia que queria uma sociedade socialista e livre para Portugal e para a minha gente. Uma sociedade justa onde pudéssemos prosperar à sombra de um bom relacionamento com todos os povos. Sonhei uma sociedade mais culta – depois da guerra das armas tinha de começar a guerra da educação; uma guerra que arrancasse ao analfabetismo uns milhares de portugueses e desse a todos oportunidade de chegarem tão longe quanto as suas capacidades intelectuais permitissem.

Em 1975, depois de já ter cumprido o meu “dever” de deixar Moçambique para os Moçambicanos, depois de ter concluído o sonho do Infante D. Henrique, o Navegador”, de ter dado “novos mundo ao mundo”, dando novos Estados à comunidade de Estados nacionais, em Portugal, percebi que os sonhos se desfaziam – os meus e os de muita gente – porque a maré alta de fantasia assolava o pouco “espaço” que aqui havia para tanto ideal onírico. Em Portugal a maioria sonhava com uma sociedade livre e justa – até Freitas do Amaral, então líder do partido mais de direita que não votou a Constituição em 1976, afirmava que queria o socialismo! – mas não sabia o “caminho” e quem lho indicava fazia-o para servir a sua própria perspectiva.

 

Vieram os Governos constitucionais e com eles o desejo de unir o destino político do país ao da Comunidade Económica Europeia. Parecia que não sobreviveríamos isolados num continente que era ainda e só um pequeno conjunto de Estados. Não procurámos caminhos alternativos. Perdemos o sentido da originalidade, desprezámos o passado e o sentido da História, porque julgávamos que esta se havia fechado ao arriar a bandeira republicana e portuguesa nos territórios de além-mar. Esquecemos os oceanos e as caravelas, esquecemos a situação geográfica do país e da costa nacional, esquecemos que somos um povo de “transição”, um entreposto comercial… sempre o fomos, sempre o havemos de ser. A maldição da ditadura continuava a pairar sobre os Portugueses: apagou-lhes a lucidez e a visão dos largos horizontes, varreu-lhe o desafio do único “deserto” que a nossa genética berbere nos aponta como caminho a ser explorado: o mar. Prevaleceu o pensamento estrangeirado de todos os políticos criados à sombra das ideias que pairavam lá para além das nossas fronteiras. Prevaleceu a fantasia que uma nova gente havia nascido na madrugada de 25 de Abril de 1974, esquecendo que há um inconsciente colectivo que não vem no sangue, mas na cultura, nas histórias que são contadas, nas lendas que se recordam – quem as recorda e sabe! – nos cantares, na sonoridade das palavras, nos risos e sorrisos, nas danças, nos amores que se cruzam nos olhares das moçoilas e dos mancebos das aldeias, no embalo dos recém-nascidos, no sol do Verão e no vento agreste do Inverno das serranias, nas conversas dos velhos e na curiosidade dos jovens. Tudo se esqueceu, porque se queria esquecer a ditadura; julgava-se que ela era responsável pelo saber de séculos, quando, afinal, era responsável por ter calado o que a modernidade calou: a História. E nisso, democratas e fascistas igualaram-se: não quiseram saber da alma popular, da parte transcendental do ser Português. Daquele que foi ao Japão no século XVI e daquele que, pendurado no espaço como se no cesto da gávea estivesse, pintou a torre Eiffel no século XX. Esqueceram o “destino” que desenhou, a ferro e fogo, a Estratégia Nacional, mesmo quando ainda não se sabia o que era estratégia e não tinha entrado no vocabulário corrente a palavra nacional. Esqueceram o rumo, o “nosso norte”, o ponto marcado pelo astrolábio de uma vontade pachorrenta, mas, por isso mesmo, timbre de um Povo.

Sucederam-se os Mários Soares, os Cavacos Silvas, até chegarmos aos analfabetos Passos Coelhos, aos Gaspares, a toda a corja de ignorantes que incensamos como quem odoriza novos templos que de sagrado só têm a aparência.

 

Há trinta e nove anos, éramos capitães, inocentes, mas sonhadores, porque sabíamos que guardávamos em nós as raízes da História, da Estratégia Nacional, da Cultura Portuguesa, da sagrada Portugalidade! Estamos velhos e muitos, talvez os melhores de nós, já partiram para o Oriente Eterno, o Oriente dos nossos sonhos, e já não conseguimos mais do que contar histórias que vão ser lendas na época de barbárie que se avizinha.

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por Luís Alves de Fraga às 15:26



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