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Fio de Prumo


Quinta-feira, 19.10.17

Não sou troca-tintas, mas mudei de opinião

 

Sempre procurei ser fiel a princípios políticos, não mudando de opinião conforme sopra o vento, mas agora, agora sou obrigado a mudar uma opinião: o Presidente da República, o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, afinal, porque continua igual a ele mesmo, obriga-me a dar o dito por não dito e afirmar que, sem dúvida, é um oportunista.

 

Não mudei por mero acaso! Mudei porque ele mudou de atitude política logo depois de ter visto os resultados eleitorais de há pouco, de a Cristas começar a cantar de galo e do Passos Coelho anunciar a sua retirada de cena. Com um golpe político de mestre, Marcelo põe em xeque o Partido Socialista ao obrigar que os grupos parlamentares de esquerda se demarquem dele ou se afundem com ele e, de tudo isto, recebe dividendos o novo líder do PSD e a associação com o CDS.

 

Cidadão Marcelo, o senhor desiludiu-me, porque me iludiu durante este tempo todo, até agora.

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por Luís Alves de Fraga às 00:37

Quinta-feira, 12.10.17

Termas, um local democrático

Durante sete anos fui frequentador assíduo — em certas circunstâncias, duas vezes na mesma época — das termas de Caldelas.

A vila, erguida a essa categoria por obra e graça do Espírito Santo, pois não passa de um lugarejo, na rua/estrada principal, tinha pensões de um lado e do outro quase em todos os prédios. Pensões para todos os preços e para todos os gostos. Ali, os doentes dos intestinos, procuram alívios para os seus males, bebendo as águas e tomando banhos e clisteres.

Fui por recomendação médica — médico da especialidade — no recuado ano de 2000, o primeiro do século e do milénio, e por lá andei. Conhecia muito mal o Minho e a sua gente. Pela Internet escolhi uma pensão, por, dizia o anúncio, ser a maior. Era, realmente, a maior em número de quartos, mas também em simpatia de proprietários e pessoal. No segundo, ano o quarto já não era “o quarto”, mas “o meu quarto”. E lá se punha a pequena mesa, tipo secretária, para eu poder escrever e trabalhar. E havia os “mimos” alimentares da época: se era tempo ainda de cerejas, coziam-se com açúcar, para meu deleite.

Se tudo tinha um tipicismo a que não estava habituado, o mais curioso era o largo onde se bebiam as águas. Era o mais democrático de todos os locais da localidade — talvez a igreja o fosse, também, mas, como não vou a missas, disso não posso dar testemunho —, porque havia gente de todas as condições: desde o professor universitário ao pequeno e pobre proprietário agrícola do Norte; desde quem era culto e lia livros eruditos até quem se pegava de conversa fiada com o companheiro mais próximo do banco onde estava sentado; desde o velhote com dificuldades de locomoção até ao jovem desempenado, mas com intestinos revoltos.

Os dias passavam lentos, quase iguais, embora eu fosse, entre as refeições, depois dos tratamentos, dar uma volta pelos arredores: Braga, Vila Verde, Terras do Bouro, S. Bento da Porta Aberta, Amares, Guimarães, Ponte de Lima e o mais que se podia ver e parar. Mas Braga fazia os meus encantos! No “centro” da cidade, para além de alguns “cafés”, onde me sentava a gozar da simples vista das pessoas a passar, a quantidade de lojas e o seu fulgurante comércio eram um atractivo para quem gosta de andar lentamente a cuscar montras. E uma livraria, com jardim, inimaginável numa cidade de província! Perdia horas a olhar e a consultar livros.

 

Depois de ter gozado, muitos anos seguidos, as exaustivas férias de praia, chega-se a uma idade que apetece a tranquilidade do campo e dos passeios de carro, descobrindo recantos sempre novos! Tão novos que deu para descobrir, à beira da estrada, num larguinho minúsculo, o busto do António Variações! A terra dele não o esqueceu. E sabeis que era de Caldelas o famoso Chefe Silva, que tantos e saborosos pratos ensinou nos programas de culinária, na televisão, há muitos anos?

Nunca me entediei de ou em Caldelas, mas havia quem achasse excessiva aquela “democracia” de doentes intestinais parolos e demasiado “populares”! Meus conhecidos foram lá uma vez e nunca mais voltaram. Eu tenho saudades…

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por Luís Alves de Fraga às 17:58

Quarta-feira, 11.10.17

Os "cafés"

 

Ontem fui à "baixa" de Lisboa e sentei-me num "café"... a tomar um chá.

Olhei à minha volta e vi, felizmente, um grupo de jovens portugueses (porque a "baixa" está a rebentar de estrangeiros!) em amena cavaqueira à volta de várias chávenas de café e sem nenhum telemóvel à vista.

Rejubilei! Aleluia! Finalmente, vejo gente a conversar (conversa que me pareceu, por força das frases que fui ouvindo, interessante).

Fiquei a olhar para eles e a recordar os "cafés" da minha juventude... os de "bairro" e os da "baixa".

 

Os "cafés" eram locais onde se bebia a "bica" por um preço acessível, se lia o jornal e se conversava. Havia horas para os frequentar: no fim do dia de trabalho, antes do jantar (comia-se lá para as 20h30) e depois do jantar. No "café" escrevia-se, estudava-se e falava-se. Por lá se contavam as histórias do dia-a-dia, discutia-se futebol e política. Esta sempre em surdina por causa dos "bufos" (havia-os ao serviço da polícia política, mas eram mais ou menos conhecidos dos frequentadores assíduos dos "cafés" de "bairro"). Na "baixa" lisboeta, entre os mais velhos cidadãos, os que haviam vindo do tempo da 1.ª República, traçavam-se planos de revoluções e de golpes de Estado que, normalmente, "morriam" na mesa do "café" quando esses velhos saudosistas se levantavam e iam a caminho de casa, alquebrados ao peso dos anos e das dificuldades da vida consequência das magras reformas.

 

Tenho saudades dos velhos "cafés" da minha Lisboa ainda sem esta chusma de turistas, que fotografam tudo e todos com os seus pequenos telemóveis ou as suas potentes máquinas digitais.

Era uma Lisboa de ronceiros "eléctricos" apinhados à hora de regressar a casa.

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por Luís Alves de Fraga às 12:20

Segunda-feira, 18.09.17

A Espanha

 

O país vizinho está tão próximo de nós, que não esconde a tentação histórica de nos absorver, como já aconteceu no século XVI (1580). Hoje, essa tentação aparece diluída na existência da União Europeia, mas existe. Para percebê-la basta olhar para o que está a acontecer em relação à Catalunha.

 

Desde sempre, mas em especial desde 1640, os Catalães desejaram a independência em relação a Castela e Madrid, mas o poder central esmagou, de formas diferentes, essa vontade separatista. Agora está ao rubro a tensão entre o Governo da região autónoma catalã e o Governo central de Espanha.

A separação justifica-se de muitas e variadas formas, mas, acima de todas, pelo facto de a Catalunha ter definida uma cultura absolutamente distinta da de Castela, cuja ambição centralista lhe vem da pobreza de meio económicos.

 

O que me preocupa mais, no momento que passa, é saber se os políticos portugueses têm consciência exacta da atitude estratégica a adoptar dentro da Península e fora dela, na União, pois, à maior resistência de Madrid em dar liberdade à Catalunha, corresponde — terá de corresponder — um maior desejo de domínio hegemónico sobre Portugal. É o jogo internacional das compensações. E, nisto, os militares de Portugal não podem deixar de ter uma palavra a dizer.

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por Luís Alves de Fraga às 14:16

Sexta-feira, 08.09.17

Coerência

 

Às vezes fico-me a pensar sobre o significado profundo das palavras. Não me interessa o que diz o Dicionário; interessa-me o que me diz a experiência de vida e, por conseguinte, o resultado da minha reflexão.

Hoje fiquei-me por coerência.

 

Diz-se ser coerente alguém que age em conformidade com o que pensa e apregoa. E acha-se nisto uma virtude.

Reflectindo com cautela, eu acho nisto um tremendo defeito. E passo a explicar.

 

A absoluta certeza em nós mesmos é um acto de enorme vaidade e de egoísmo. Na base da coerência tem de estar essa certeza, pois, se não estiver, a nossa postura - que mais não seja, no foro íntimo - é vacilante, incerta, e, consequentemente, falha de coerência, porque nos balançamos entre o sim e o não. E nem o sim e nem o não poderão ser definitivos, porque novas dúvidas nos podem assaltar em cada momento que passa. Deste modo, a coerência é irmã siamesa do egoísmo, já que se centra nas nossas certezas "inquestionáveis". E só não nos questionamos se estivermos "cheios de nós".

 

Egoísmo é, ao cabo e ao resto, o que mais abunda no ser humano! Por isso somos "coerentes". Vemo-nos em primeiro lugar e como centro de tudo e de todos. E o egoísmo é a exaltação da nossa vontade - tal como a coerência -, porque não somos capazes de nos despirmos de nós mesmos, das nossas pequenas "feridas" ou desejos ou vontades ou certezas. Em vez de nos colocarmos na pele do outro, não somos capazes de despir a nossa pele e, se por ventura o fazemos, é como exercício para provar a nossa razão, é para reforçarmos a nossa vontade e jamais para gerar, em nós, a dúvida. Porque o egoísmo é essa incapacidade, por vezes, por conveniência pessoal, até deixamos transparecer a existência de tolerância, de incerteza, de hesitação. Todavia, é mais um artifício do nosso egoísmo, na tentativa de parecermos coerentes, para impormos aos outros a nossa "coerente" vontade.

 

O grande e mais belo discurso de coerência verdadeira que conheço é a tradução portuguesa, devida a Félix Bermudes, do "If" de Rudyard Keppling onde se faz a apologia do máximo desprendimento pessoal. Eis porque, em consciência, julgo que a coerência exige a dúvida, a incerteza, ainda que estas se manifestem somente no íntimo de cada um.

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por Luís Alves de Fraga às 07:19

Sábado, 24.06.17

Acordo Ortográfico de 1990

 

Porque acho de interesse que fique aqui este testemunho, transcrevo-o, pois foi recebido por email enviado por um grande, velho e sapiente Amigo, que se preocupa muito com questões de Língua Portuguesa.

 

Nove argumentos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90)

por

MANUELA BARROS FERREIRA

 

 

Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada. Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do OA 90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática, económica e de preservação patrimonial que me levam a não concordar com a sua aplicação.

 

  1. ARGUMENTO DA POUCA EFICÁCIA

O AO 90, em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente. Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que exclui três tipos de vocábulos), 2.691 palavras que se escreviam de forma diferente mantêm-se diferentes; apenas 569 que eram diferentes se tornaram iguais; 1.235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção, deceção, impercetível..., enquanto no Brasil se continua a escrever acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção, imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade ortográfica”, Jornal Público, 19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)

 

  1. ARGUMENTO DE ORDEM FONOLÓGICA

Uma das características da língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a” , “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia porém o recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”,“espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.

 

  1. ARGUMENTO DE ORDEM MORFOLÓGICA

Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.

 

  1. ARGUMENTO DE LINGUÍSTICA HISTÓRICA

A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza.

Sobretudo com o Renascimento, a nossa língua sofreu um impulso extraordinário. A partir dessa altura foram criadas ou recuperadas numerosas palavras com base no grego e latim. Não falemos nos termos da Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar nem tempo para tamanha empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de palavras derivadas.

Se repararem bem, a coerência morfológica que mencionei acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas vezes diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta” não derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de “leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim directamente a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas: “luna-”, “pede-“, “lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim transformado por via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e outras consoantes sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.) outra coisa é criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já longínquo para fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo, muitas das nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do qual foram criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma dupla marca de origem: social (erudita) e temporal (tardia).

 

  1. ARGUMENTO EDUCATIVO

Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra “noite” se formou “noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o que existe para o AO 90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”?

Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e dizer-lhe que são palavras entradas na língua por via erudita e não por via popular? E que, se elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra também erudita, tal como “lacticínios” ? Escrever “laticínios” não remete para outra coisa a não ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se vende nos supermercados?

 

  1. ARGUMENTO SOCIOLÓGICO

Antes de 1990 já existiam duas grafias em Portugal: a norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em Prontuários Ortográficos; e uma grafia difusa, sempre em reconstrução e evolução - a das mensagens juvenis - caracterizada pela simplicidade extrema, minimalista, com consoantes isoladas representando palavras, sem pontuação, nem cedilhas nem tiles. Esta tendência não fez senão acentuar-se com a generalização do uso electrónico. É nesta situação dicotómica que se insere uma terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os defensores da norma de 45 agridem verbalmente os defensores da de 90 e vice-versa. E os jovens? Uns são penalizados nas notas por escreverem à antiga algumas palavras-ratoeira; outros são menosprezados porque escrevem à sua, deles, moda “simplex”; e os que escrevem “à moderna” deixam de respeitar as edições existentes na biblioteca da sua escola e inclusive invocam o pretexto da “confusão gráfica” para deixarem completamente de ler.

Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que será.

 

  1. ARGUMENTO DIPLOMÁTICO

O Acordo Ortográfico de 1990 tinha-se proposto unificar a escrita de todos os países de língua oficial portuguesa. Este objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não tem o acordo de todos .

Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”.

Angola e Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me parece um grande exemplo de bom senso, sobretudo se tivermos em conta o argumento que se segue). A opinião destes países de língua oficial portuguesa devia ter sido ponderada e tida em conta pelo governo português antes de avançar para uma “situação de facto” extremamente difícil de reverter.

 

  1. ARGUMENTO ECONÓMICO

O que seria economicamente mais recomendável?

Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras vendas de futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou manter a escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que produziu?

Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina Chiziene:

“Quantos dicionários Moçambique terá de comprar de novo? Quantos livros terá de mandar reescrever? Quantos livros de escola terão de ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que vale a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um “c” e um “p” do que está escrito? [...] Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. (Tradutores contra o Acordo Ortográfico).

 

  1. ARGUMENTO DA PRESERVAÇÃO PATRIMONIAL

É natural que uma língua que se começou a escrever e ensinar há relativamente pouco tempo – por exemplo, o mirandês, no fim do século XX – não tenha qualquer obrigação de respeitar formas que os portugueses foram elaborando ao longo dos séculos. Porém a mim parece-me que todos nós, portugueses, que dispomos de uma língua escrita desde, pelo menos, D. Afonso II, temos obrigação de manter o mais possível as marcas históricas das palavras que até nós chegaram.

A grafia portuguesa já em tempos renunciou a algumas marcas históricas: por exemplo, o “ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f” e “l”), dado que esse modo de escrever induzia a leituras erradas, e podia, por isso mesmo, ser descartado. Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo evidente a leitura das vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que existe dentro de cada paradigma vocabular.

Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta) maior facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa mesma escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens compreenderem os mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre elas.

 

PARA TERMINAR:

Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais.

* Ex-investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.

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por Luís Alves de Fraga às 19:36

Sábado, 24.06.17

O Caso do Momento

 

Pronto, as televisões e os jornais já estão satisfeitos... Têm "caso" para discussão!

É o raio da falha das comunicações através de um sistema que custou milhões!

 

Mas falhou?

Falhou, sim senhor, porque alguém disse que falhou! E se não falhou passou a falhar, para haver "caso"!

 

Ora digam-me cá uma coisa! O que é que as televisões e jornais querem? É saber se falhou ou terem "caso" para discutir? Se é para saber se falhou e com isso alertar quem de direito para o assunto, das duas uma: ou quem de direito já sabia e as televisões e jornais não, ou não sabia e ficou a saber. Mas, por favor, parem com uma discussão que já chateia!

É que estamos no "inferno português" onde há sempre qualquer coisa que não funciona!... Da próxima vez funcionam as comunicações, mas por causa das ciclovias, não podem passar os bombeiros ou qualquer outra merda no género!

 

Mais de vinte e quatro horas para desmontar um grua que não devia ter caído e caiu, o que é que os senhores querem?!

Olhem só se tivesse sido um descarrilamento do metropolitano! A Lisboa subterrânea parava quinze dias e a da superfície ficava engarrafada por um mês!

 

Mas os jornalistas não percebem que o erro não está nas falhas ou no que falha, mas em nós?

Arre gaita, que são burros!

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por Luís Alves de Fraga às 00:17

Quinta-feira, 22.06.17

Planeamento

 

Em Portugal cultiva-se a falta de planeamento em tudo! Os Portugueses - nós, com algumas excepções - gostamos de improvisar para mostrar a capacidade extrema de desenrascanço, e achamos nisso uma virtude.

 

Podendo duplicar um serviço, uma operação, um gesto, por que é que se há-de simplificar? Podendo ter informações dispersas, por que é que se hão-de centralizar? Podendo fazer mal feito, por intermédio de um "curioso", por que é que se há-de fazer bem feito por recurso a um especialista? Podendo guardar para fazer à última da hora, porque é que se há-de fazer com tempo e calma?

Porque se está convencido que não se morre no dia, mas sempre uma semana depois!

 

Este país, eternamente adiado e desorganizado, podia ser fantástico, podia ser o paraíso na Terra, se tivéssemos a capacidade organizativa e de planeamento dos povos do Norte da Europa! Com as condições naturais que temos e tudo a ser feito com verdadeiro profissionalismo, teríamos tempo para trabalhar, descansar, passear e viver! E ainda teríamos dinheiro suficiente para vivermos de bem connosco.

 

Falta-nos sentido da ordem.

O sentido da ordem ou nasce com cada um ou aprende-se! Aprende-se como tudo! Porque tudo se aprende! E, assim sendo, o que nós não queremos é ter professores que nos ensinem a ser capazes de planear e planear e só ter capacidade de:

Antever, prever, imaginar alternativas, optar, definir soluções, implementar modos de fazer.

Para se planear tem de se ter tempo para tomar decisões antes da pressão dos acontecimentos.

 

Quando é que se planeia a formação de professores capazes de aprender, ensinar e executar planeamento? Quando é que se faz a revolução das mentalidades de modo a tornar a nossa vida digna de ser vivida, porque vivemos num país planeado?

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por Luís Alves de Fraga às 11:51

Quarta-feira, 21.06.17

Acordar de repente

Os jovens, pelo menos uma parte com algum significado, acordou de repente para a morte inesperada... Só estavam habituados a ver ou saber da morte de familiares doentes ou idosos. Esses morrem pelas causas "certas" e na idade "certa"! Mas, morrer assim de repente, porque se vai numa estrada e um incêndio tira a vida ou se está a defender os parcos haveres e se morre de mangueirita na mão a verter água para evitar o pior, isso foi novidade para muita gente mais nova!

Claro que o meu coração sangra perante tal catástrofe, claro que lastimo tudo o que aconteceu e está a acontecer, mas... lá vem o mas reticente!

Mas a minha geração, a dos homens com setenta e sessenta e tal anos, começou a ver morrer de forma brutal os seus amigos muito jovens, tão jovens como éramos na altura, durante a preparação para a guerra e durante a guerra. Para mim, foi o camarada que se atirou para um lago de água fria e morreu de choque hidrotérmico, em manobras militares, o companheiro de vários anos que morreu esmagado entre dois camiões militares, isto ainda nem chegáramos a África e, depois, em teatro de operações, foi a notícia de "lá ficou Fulano", "lá se finou Beltrano" e "desta vez foram dois ou três... lembras-te daquele moço, bom rapaz? Morreu". Todos os meses, alguém nosso conhecido ou amigo, ficava sem vida "fora do tempo de morrer"... porque também se julgava, antes, que só se devia morrer de idade ou doença!
É por isso que olho para toda esta desgraça e só me sai da boca uma frase, que parece feita, mas resulta de uma vida semeada de mortes: "É o destino! Tinha de ser!"

E há jovens que se revoltam quando me ouvem! Lastimo-os. Não estão preparados para a vida. A minha geração teve de se preparar muito jovem! Teve de saber olhar para as macas, os sacos de transporte de mortos, para os caixões e ir vivendo com uma certeza: hoje era aquele, amanhã poderíamos ser nós. A mim, ainda que não queira morrer, isso deu-me tranquilidade para saber esperar pelo meu momento.

Paz a todos os que partiram tragicamente e resignação aos que ficaram para aprenderem a viver com a dor e a saudade, porque... isso também se aprende.

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por Luís Alves de Fraga às 09:30

Sábado, 17.06.17

Uma Questão de Idade

 

Ontem, próximo da hora de me deitar (já bastante depois das duas da manhã), comecei a pensar num tema: Presidentes da República Portuguesa e cheguei à conclusão de que havia conhecido todos os Presidentes de Portugal com exclusão dos da 1.ª República. Para ter conhecido algum desses outros, com alguma consciência e recordação, só gente com noventa ou um pouco mais, anos de idade, excepção feita a Bernardino Machado, dada a sua enorme longevidade.

 

Com este pensamento, foi fácil concluir que estou avançado nos anos e, em exercício de memória, lá comecei a enumerar os nomes dos Presidentes:

 

Marechal Óscar Fragoso Carmona - morreu era eu um menino, com dez anos, mas recordo ter ido, com a minha Mãe e Avó, ao palácio de S. Bento, passar diante da urna aberta, numa última despedida ao Presidente (ao que me lembro, o cadáver foi mal embalsamado e começou a deitar cheiro antes do tempo previsto); o facto impressionou-me por causa da imensa multidão que esperava em longa fila pelo momento de entrar e simplesmente passar frente à câmara ardente. Foi, talvez, o momento em que o Povo se aproximou tanto do Presidente! Foi preciso ser cadáver…

 

Marechal Francisco Higino Craveiro Lopes - era já eu rapazola quando estive próximo dele em diversos momentos: aquando da chegada da sua deslocação a Londres, e, depois, em quatro anos seguidos (1954, 1955, 1956 e 1957), nas aberturas solenes dos anos lectivos no Instituto dos Pupilos do Exército; era um homem sisudo, aparentemente muito correcto, que causava boa impressão; nos últimos anos do seu mandato o que eu sentia é que era mais um a obedecer pacificamente à vontade de Salazar. Enganei-me. Terá, segundo bons testemunhos, patrocinado, com simpatia, uma tentativa de revolta contra a ditadura. Não era, de certeza, um democrata feito e acabado, mas terá sido alguém que compreendeu a necessidade de uma mudança política em Portugal.

 

Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás - foi aquele que mais marcou a minha vida de fim de juventude e de chegada à idade adulta. Estive várias vezes bem perto dele. Aparentemente, um velho confuso, sem dom da palavra, dando a ideia de ser "um pau mandado", todavia, a verdade surgiu depois da "morte política" de Salazar, quando Marcelo Caetano foi Presidente do Conselho de Ministros: era, afinal, um ultra do regime, um intransigente e um tipo de vontade firme. Caiu com o 25 de Abril de 1974 e foi exilado para o Brasil, mas veio morrer a Portugal, mais concretamente em Cascais, treze anos depois do golpe que o derrubou. Não teve a dignidade de Marcelo Caetano, que recusou o regresso mesmo após a sua morte.

 

Marechal António Sebastião Ribeiro de Spínola - nunca me cruzei com tal figura a não ser na Academia Militar onde, nos anos de sessenta, foi pronunciar uma conferência para os cadetes sobre a guerra de guerrilha. O que é que me ficou na lembrança sobre ele? Pois, várias ideias: um falso democrata, por ser excessivamente "militar", habituado à hierarquia castrense, sem elasticidade política para o tempo em que se fez nomear Presidente da República. Não era o homem para o momento, nem do momento. Não podia ser. A carreira militar apontava-o como um possível "semi-ditador". Afastou-se, conspirou e veio a morrer após a estabilização da democracia.

 

Marechal Francisco da Costa Gomes - estive duas ou três vezes fisicamente muito próximo dele, trocámos meros cumprimentos formais. Foi, no curto mandato presidencial, o mais importante de todos os Chefes de Estado de Portugal, pois soube evitar, em tempos altamente conturbados, uma guerra civil, buscando, com cautela, consensos políticos entre todas as forças em presença. Soube valorizar a democracia e é absolutamente injusta a acusação de falta de definição perante as situações. Não foi o "Xico Rolha", que alguns, quase todos, lhe chamaram; foi o Homem capaz de encontrar a bissectriz das mais complexas situações revolucionárias que atravessaram Portugal. A História está em dívida com este Presidente, pois não o exalta como ele merece.

 

General António Ramalho Eanes - antes e enquanto Presidente nunca falámos, mas, depois de ter deixado funções públicas, troquei com ele algumas palavras formais. Foi o Presidente da transição democrática, aquele que pretendeu dar a maior impressão de isenção política, mas, no final do segundo mandato, caiu na tentação de se envolver com a formação de um partido sem base popular estável nem espaço de apoio possíveis. Dizem, todos os que lhe são próximos, que tem sentido de humor e boa disposição, contudo, nada disso transparece nas suas aparições públicas. Tem-se recolhido a um silêncio político só cortado nos apoios que dá a candidaturas eleitorais, mostrando nem sempre estar do lado das simpatias populares ou esperadas. Foi o último Chefe de Estado militar. Provavelmente, em democracia, não mais voltaremos a ter outro.

 

Mário Alberto Nobre Lopes Soares - conheci-o com alguma proximidade e falámos várias vezes, embora de assuntos triviais ou meramente sociais. Não foi, como agora se apregoa, o "pai da democracia portuguesa". Foi o político habilidoso e versátil que desviou a opinião pública nacional, num momento histórico e decisivo, para a votação no centro-esquerda. "Puxou" o Partido Socialista para a direita, quebrando-lhe qualquer esperança de vir a ser o "último salto" antes do Partido Comunista. Abriu as portas à negociação com a CEE, mesmo antes de ser Presidente e, no desempenho das funções para que se sujeitou ao voto popular, foi um indefectível europeísta. Procurou fazer uma magistratura de contacto com o país profundo, mas, na verdade, nunca conseguiu ir muito além do que determinava o protocolo.

 

Jorge Fernando Branco de Sampaio - nunca falei com ele. A sua presidência foi sobressaltada por um ou outro acontecimento político de monta, em especial quando tomou decisões na sequência do abandono da governação por parte de Durão Barroso. Sendo socialista, filiado no Partido, antes, na juventude, foi fundador de uma deriva socialista mais radical (Movimento de Esquerda Socialista). Fundou, também, um grupo de reflexão designado por Intervenção Socialista, em 1975. Embora integrado no Partido Socialista, julgo poder afirmar, a sua verdadeira postura política não se identificou, ao longo da vida, com a vertente meramente social-democrata daquele partido.

 

Aníbal Cavaco Silva - também nunca falei com ele. Foi o mais controverso dos Presidentes do período democrático, porque, tendo deixado, vinte anos antes, a governação de Portugal em situação dúbia, voltou, depois de uma longa "travessia do deserto político", a impor aos Portugueses a sua invulgar postura arrogante, distante, às vezes irónica no plano político, transportando para o cargo simpatias e apoios que deviam ficar longe do palácio de Belém. Foi, talvez, o menos isento dos Presidentes e o mais difícil de perceber depois de Américo Tomás.

 

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa - conheço pessoalmente e mantive parco relacionamento social. É, sem sombra de dúvida, até ao presente, o mais popular dos Presidentes desde 1926, sendo comparável, em fama e "irrequietismo" ao Presidente Bernardino Machado. Tem procurado manter uma soberba equidistância entre a presidência e as suas simpatias partidárias.

 

E assim, acabo esta reflexão sobre a história biográfica dos Presidentes da República Portuguesa que conheci (eu e todos os portugueses da minha idade, um pouco mais velhos ou um pouco mais novos).

Vale a pena, às vezes, olhar para trás e perceber criticamente as pessoas com quem nos cruzámos, mesmo que muito à distância. Com esse olhar ressituamo-nos e podemos repensar-nos enquanto cidadãos.

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por Luís Alves de Fraga às 19:32


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